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"Prossigamos até a perfeição" Hb 6:1

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Conhecimento, presciência, pré-conhecimento - προγινώσκω (proginóskó)

O verbo προγινώσκω (proginóskó) e o substantivo πρόγνωσις (prognósis), foi impregnado com certa conotação determinista, fatalista, mecanicista, porém, uns apontam a soberania e outros a presciência divina como fator determinante da salvação. 

 

“PEDRO, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros dispersos no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia; Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas” (1Pe 1:1 -2)

Introdução

Ao comparar as traduções bíblicas abaixo se verifica que elas são divergentes quanto ao significado do termo grego πρόγνωσις (prognósis):

“Pedro apóstolo de Jesus Cristo a (os) eleitos forasteiros de (a) dispersão de (o) Ponto, de (a) Galácia, de (a) Capadócia, de (a) Ásia e de (a) Bitínia, segundo (a) presciência de Deus Pai em santificação de (o) Espírito para obediência e aspersão de (o) sangue de Jesus Cristo, graça a vós e paz seja multiplicada” (1Pe 1:1 -2 ) Novo Testamento Interlinear – Grego - Português – SBB.

“Pedro Apoftolo de Jefu Chirifto a os eftrangeiros efpalhados em Ponto, em Galacia, em Cappadocia, em Afia, e em Bythynia. Elegidos fegundo a providencia de Deus Pae, em fanctificaçaõ de Efpirito...” ( 1Pe 1:1 -2) Novo testamento, Companhia das Índias Oriental, cidade de Amsterdam, Bartholomeus Heynen e Joannes de Vooght, 1681.

“Pedro, um apóstolo de Jesus Cristo, aos (judeus) peregrinos da dispersão (do Ponto, da Galácia, da Capadócia, da Ásia e da Bitínia), Eleitos segundo o pré-conhecimento de Deus Pai, na santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas” ( 1Pe 1:1 -2 ) Bíblia Literal do Texto Tradicional.

Os cristãos são eleitos segundo a ‘presciência’, ‘providência’ ou ‘pré-conhecimento’?

As traduções acima trazem concepções divergentes acerca da palavra grega πρόγνωσις (prognósis) traduzidas por ‘presciência’, ‘providência’ e ‘pré-conhecimento’.

Problemas de traduções à parte, para uma exegese segura do texto, em primeiro lugar faz-se necessário salientar que os versos 1 e 2 da primeira epístola do apóstolo Pedro não dão sustentação à doutrina da eleição e da predestinação, quer seja calvinista ou arminianista.

Em segundo lugar, não se deve ignorar que as passagens bíblica de Romanos 8:29 e 1Pedro 1:2 por conterem respectivamente o verbo grego προγινώσκω (proginóskó) e o substantivo πρόγνωσις (prognósis), sofreram influências doutrinárias ao longo dos séculos, o que demanda um esforço muito maior por parte do leitor para abstrair o sentido exato do texto.

O verbo προγινώσκω (proginóskó) e o substantivo πρόγνωσις (prognósis), foi impregnado com certa conotação determinista, fatalista, mecanicista, porém, uns apontam a soberania e outros a presciência divina como fator determinante da salvação.

Como resolver este problema com relação às traduções bíblicas que permita uma leitura correta do texto?

Ciente da complexidade que há em analisar o significado exato dos termos προγινώσκω (proginóskó) e πρόγνωσις (prognósis), quando inseridos em uma passagem bíblica, para não ser enlaçado por questões doutrinárias existentes é imprescindível o distanciamento das ideias que foram produzidas nos círculos acadêmicos ao longo dos tempos.

Em segundo lugar, a busca do significado dos termos empregados nas Escrituras deve restringir-se às Escrituras, o que atende a recomendação paulina de ‘comparar coisas espirituais com as espirituais’.

Em terceiro lugar, não desprezar que a escrita utilizada nas cartas do Novo Testamento sofreu influência do substrato cultural hebraico-greco-romano.

 

O termo ‘conhecer’

Se analisarmos o tema ‘conhecimento’ junto aos gregos, tudo o que envolve atividade intelectual, desde o mito até a filosofia, diz de ‘conhecimento’, pois envolve apreensão de ideias que surgem por intermédio de descrições, hipóteses, conceitos, teorias, princípios e procedimentos. 

‘Conhecimento’, ‘ciência’, ‘sabedoria’ são termos seculares utilizados para descrever o ato ou efeito de abstrair uma ideia ou ter noção de alguma coisa. Quando olhamos para o vocábulo grego (gnosis, sophia, sunesis, phronesis, ginosko, eido, epistamai, suniemi ), somos surpreendidos pelo grande número de termos que permitem fazer referência ao ‘conhecimento’ e os seus múltiplos aspectos, como: sabedoria, ciência, ensino, aprendizado, prudência, instrução, saber, inteligência, compreensão, ignorância, etc. 

Quando do inicio da análise dos termos gregos traduzidos por ‘Presciência’, ‘Pré-conhecimento’, ‘providência’, foi necessário observar a cultura judaica sob a ótica dos escritores do Novo Testamento, pois quando escreveram estavam de posse de um novo conhecimento. Enquanto os judeus consideravam como ‘ciência’, ‘conhecimento’ e ‘verdade’ o comdex divino entregue a Moisés, os apóstolos apontavam para Cristo como o ‘conhecimento’ de Deus "Instrutor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei" ( Rm 2:20 ). 

Entretanto, quando os apóstolos faziam referencia a ideia de ‘ciência’ pertinente aos judeus, eles utilizaram signos linguísticos próprio dos gregos. De igual modo, quando apresentavam Cristo como o ‘conhecimento’ de Deus, também utilizaram a língua dos gregos. 

Apesar de a língua ser o idioma dos gregos, a matéria que trataram no Novo Testamento não possui vinculo com a ciência dos gregos e nem com a ciência dos judeus, visto que a disciplina abordada é o conhecimento de Deus revelado em Cristo. 

Analisamos as palavras traduzidas por ‘conhecimento’ insertas no Novo Testamento buscando o seu significado exclusivamente através dos textos bíblicos, pois onde se lê ‘conhecimento’, podemos nos deparar com a ciência dos gregos, ou com a lei dos judeus, ou ainda com o evangelho de Cristo. 

O verbo grego traduzido por ‘conhecer’ é ginosko (γινώσκω) e significa ‘saber’, ‘conhecer’, ‘vir a conhecer’ – Léxico do Novo Testamento grego – português, F. Wilbur Gingrich, Revisado por Frederick W. Danker, Tradução de Júlio Ρ. Τ. Zabatiero, Edições Vida Nova, pág. 46.

Strong assim define o termo:

“1097 γινωσκω ginosko forma prolongada de um verbo primário; TDNT - 1:689,119; v 1) chegar a saber, vir a conhecer, obter conhecimento de, perceber, sentir 1a) tornar-se conhecido 2) conhecer, entender, perceber, ter conhecimento de 2a) entender 2b) saber 3) expressão idiomática judaica para relação sexual entre homem e mulher 4) tornar-se conhecido de, conhecer” Strong, James Dicionário Bíblico Strong, Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong, Ed. Sociedade Bíblica do Brasil:2002.

Considerando os vários significados que os dicionários apresentam acerca da forma verbal ginóskó, apresentamos a seguinte questão: é possível ao homem ‘conhecer’ Deus?

A filosofia questiona a possibilidade de o homem conhecer Deus devido à transcendência da ideia em torno da divindade se analisado através da óptica da diversidade cultual e filosófica pertinente aos diversos povos. Alguns pressupostos epistemológicos quanto à natureza de Deus é utilizado pelos filósofos para afirmar ser Deus incognoscível e contrastam a natureza finita dos homens com a infinitude de Deus.

Mas, apesar de parecer incognoscível aos olhos da humanidade por ser eterno, onipresente, onipotente, onisciente, etc., Deus se deu a conhecer pelas coisas criadas, pois através delas é possível perceber o seu eterno poder ( Sl 19:1-6). Verdade é que a criação não torna ‘conhecidos’ os atributos da divindade como a justiça, bondade, amor, misericórdia, ira, etc, tais atributos são revelados através de sua palavra, em sentido pleno, Deus se deu a ‘conhecer’ através de Cristo.

Como ninguém nunca viu Deus, Ele, além da sua palavra anunciada por intermédio dos seus profetas, manifestou-se em carne, de modo a revelar-se aos homens ( Jo 1:18 ).

Deus apresenta-se no Antigo Testamento através de proposições simples, tais como: “Eu sou o Deus de Abraão, Isaque e Jacó”; “Eu sou Santo”; “Eu sou o Senhor”; “Eu Sou o que Sou”, etc., porém, não há uma definição que descreva toda a Sua essência a partir do invisível, intangível e imensurável, pois a compreensão do homem restringe-se ao espaço tempo.

Deus dá testemunho de Si mesmo quando trava uma relação pessoal com Abraão e toma Israel por seu povo. A prova de que Deus se deu a conhecer ao fazer uma aliança com Abraão está em que, apesar de Deus ter se apresentado através de proposições simples, Moisés tinha uma compreensão apurada da natureza de Deus.

Moisés, através das alianças que Deus estabeleceu com Adão, Noé, Abraão, Isaque e Jacó, faz a seguinte declaração acerca de Deus: “O SENHOR, o SENHOR Deus, misericordioso e piedoso, tardio em irar-se e grande em beneficência e verdade; Que guarda a beneficência em milhares; que perdoa a iniquidade, e a transgressão e o pecado; que ao culpado não tem por inocente; que visita a iniquidade dos pais sobre os filhos e sobre os filhos dos filhos até a terceira e quarta geração” ( Ex 34:6 -7).

As Escrituras constituem-se um registro das alianças estabelecidas entre Deus e os homens que possibilita uma compreensão gradual de Deus, sendo que o clímax da revelação se dá quando o Verbo de Deus se fez carne na plenitude dos tempos.

Além das alianças, as Escrituras contém, primordialmente, o testemunho de Deus acerca do Seu Filho - Jesus Cristo – que faculta aos homens identifica-Lo como o Deus eterno encarnado enviado ao mundo como luz dos que habitavam as regiões da sombra da morte ( Jo 1:7 ; 1Pe 1:21 ).

Por sua vez, quando Jesus veio, não falou de Si mesmo, antes enfatizou o que o Pai havia dito acerca do Dele nas Escrituras, revelando que as Escrituras testificam (testemunham) do Cristo "Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam" ( Jo 5:39 ); “O meu ensino não é meu, e, sim, daquele que me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus ou se eu falo por mim mesmo” ( Jo 7:16 -17).

Ora, se há um testemunho, há uma mensagem cognoscível. Se há uma mensagem cognoscível é possível compreende-la e é possível ensiná-la. Neste sentido, a bíblia contém um conhecimento que o termo grego ginóskó (γινώσκω) pode traduzir e representar.

Há na bíblia um ‘conhecimento’, um ‘saber’ que torna possível ao homem ‘vir a conhecer’ Deus. Este ‘conhecimento’, este ‘saber’, na bíblia, às vezes é apresentado como doutrina, mandamento, evangelho, Escrituras, fé, poder de Deus, sabedoria de Deus, palavra da cruz, entendimento, pregação, etc.

Este ‘conhecimento’ possui um ‘modelo’ que não deve ser conspurcado. O apóstolo Paulo recomenda a Timóteo que guarde em bom deposito o modelo das palavras que havia ouvido para retransmitir a outros a mesma ideia ( 2Tm 1:1:12 ).

O ‘conhecimento’ de Deus é possível ser ensinado, de modo que o que Timóteo ouviu do apóstolo Paulo devia retransmitir a homens fiéis e que fossem idôneos para ensinar ( 2Tm 2:2 ). Qualquer alteração quanto ao que foi ouvido, poderia fazer com que os aprendizes nunca chegassem ao ‘conhecimento’ (pleno) da verdade ( 2Tm 3:7 ).

O termo traduzido por ‘conhecimento’ em 2 Timóteo 3, verso 7 é ἐπίγνωσιν e o termo traduzido por ‘verdade’ é ἀληθείας, de modo que, se não for ensinado a doutrina de Cristo em conformidade com o que os apóstolo apresentaram é impossível chegar objetivamente a conhecer Deus com profundidade, clareza, plenitude ( Ef 4:18 -19).

Na primeira carta a Timóteo, o apóstolo Paulo faz um alerta acerca das palavras vazias e das contradições pertinentes ao ensinamento de homens que haviam se desviado da fé e, que, falsamente se autonomeavam ‘sabedoria’ (γνώσεως) ( 1Tm 6:20 ). Quem eram estes homens? Eram os judaizantes, homens que diziam professar a fé em Cristo, porém, se ocupavam com as fábulas judaicas, genealogias intermináveis, queriam ser mestre da lei e se entregaram a discursos vãos ( 1Tm 1:3 -7 ). Eles se alto intitulavam γνώσεως porque tinham a lei como forma da ciência e da verdade, mas tal sabedoria era falsa ( Rm 2:20 ).

O apóstolo Paulo fez referencia ao serviço dos judeus para com Deus como ‘zelo de Deus’, mas que tal zelo não era segundo o conhecimento preciso e correto (ἐπίγνωσιν), ou seja, a revelação de Deus em Cristo.

Através desta abordagem do apóstolo Paulo verifica-se que o evangelho de Cristo é uma disciplina, uma matéria, um conhecimento que, apesar de usar signos linguísticos pertinentes aos gregos e que contém inúmeras expressões e maneiras peculiares do idioma hebreu (hebraísmo), não deve ser confundido com a forma de ciência dos judeus e nem com a forma de filosofia dos gregos "Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo" ( Cl 2:8 ).

O conhecimento dos gentios é fruto do perquirir e do aprendizado natural do homem e, embora os judeus tenham recebido a revelação de Deus através dos seus profetas, seguiram os seus pensamentos. Não mudaram as suas concepções, não se transformaram à luz da revelação, antes se obscureceram na insensatez dos seus corações incrédulos.

A partir deste parágrafo passaremos a analisar a revelação de Deus, do evangelho. Um ‘conhecimento’ específico, completo, pleno e singular, pois pertence a deus. A bíblia demonstra que Deus é sabedor de todas as coisas e, por definição teológica onisciente.

Ele conhece os corações dos homens "E, orando, disseram: Tu, Senhor, conhecedor dos corações de todos, mostra qual destes dois tens escolhido" ( At 1:24 ); "E outra vez: O Senhor conhece os pensamentos dos sábios, que são vãos" ( 1Co 3:20 ).

Mas, há um entrave na afirmação do apóstolo Paulo: "Todavia o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus..." ( 2Tm 2:19 ). Ora, se Deus sabe de todas as coisas, como é possível Ele ‘conhecer’ somente os que lhe pertencem? Como é possível Jesus no trono da sua glória declarar aos iníquos que nunca os conheceu? Qual é o sentido do termo ‘conhecer’ quando se diz que ‘Deus conhece o caminho dos justos’?

Por que o apóstolo Paulo utilizou o termo grego ἔγνω (ginosko) no passado “ἔγνω κύριος τοὺς ὄντας αὐτοῦ”? Por que foi utilizado especificamente o termo ginosko, se havia palavras que podiam expressar melhor o saber de Deus, como: ειδω ou οιδα (eido ou oida), επιγινωσκω (epiginosko), επιγνωσις (epignosis).

Há outro entrave com relação ao verbo γινώσκω (ginosko)! Se γινώσκω significa ‘obter conhecimento de’, ‘entender’, ‘perceber’, ‘saber’, como é possível Deus ‘vir a conhecer’ alguém e permanecer imutável?

 

Como o Imutável pode ‘conhecer’ algo ou alguém e permanecer imutável?

Questionar a possibilidade de o homem finito conhecer a infinitude de Deus é um problema que a filosofia abraçou por seu, mas aplicar o verbo γινώσκω a Deus sem contrariar sua onisciência e imutabilidade, é um problema da teologia!

Quais são as implicações teológicas de se dizer que Deus onisciente é sujeito do verbo γινώσκω?

Onisciência diz de um dos atributos de Deus que, por toda eternidade agrega toda sabedoria, todo conhecimento e todo entendimento, sem demandar qualquer tipo de raciocínio ou pensamento.

Desde sempre Deus é o que é na sabedoria, no conhecimento e no entendimento, ou seja, Deus não evolui e nem regride nestes quesitos, pois é imutável. O que Deus sabe, sempre soube e saberá por toda a eternidade! Deus não é o homem que dependa de pensar, inquirir, perscrutar, raciocinar, etc.

O que significa dizer que desde sempre Deus sabe e conhece tudo e a todos, de modo que é impossível Deus ‘adquirir conhecimento de’, ‘ser informado’. Se entendermos que Deus agregou conhecimento, mesmo que minimamente, implica dizer que n’Ele houve sobra de variação, o que é impossível no Imutável.

A bíblia afirma que Deus conhece os pensamentos dos homens que são efêmeros, ou seja, Ele é sabedor (ידע yada - conhece) do pensamento de todos os homens, pois não há ninguém que consiga esconder-se de Deus "O SENHOR conhece os pensamentos do homem, que são vaidade" ( Sl 94:11 ). 

Mas, quando lemos: "Todavia o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus..." ( 2Tm 2:19 ), temos que considerar que há aqueles que Deus ‘conheceu’, e há aqueles que Deus não ‘conheceu’. Como isto é possível?  

Este mesmo princípio aplica-se a este verso: "O SENHOR é bom, ele serve de fortaleza no dia da angústia, e conhece os que confiam nele" ( Na 1:7 ). Se Deus ‘conhece’ os que n’Ele confiam, implica em considerar que os que não confiam n’Ele, Ele não ‘conhece’.

Strong assim define o termo traduzido por ‘conhecer’:

“03045 yada uma raiz primitiva; DITAT - 848; v 1) conhecer; 1a) (Qal); 1a1) conhecer; 1a1a) conhecer, aprender a conhecer; 1a1b) perceber; 1a1c) perceber e ver, descobrir e discernir; 1a1d) discriminar, distinguir; 1a1e) saber por experiência; 1a1f) reconhecer, admitir, confessar, compreender; 1a1g) considerar; 1a2) conhecer, estar familiarizado com; 1a3) conhecer (uma pessoa de forma carnal); 1a4) saber como, ser habilidoso em; 1a5) ter conhecimento, ser sábio; 1b) (Nifal); 1b1) tornar conhecido, ser ou tornar-se conhecido, ser revelado; 1b2) tornar-se conhecido; 1b3) ser percebido; 1b4) ser instruído; 1c) (Piel) fazer saber; 1d) (Poal) fazer conhecer; 1e) (Pual).

Qual das definições acima é aplicável a Deus de modo a satisfazer as exigências pertinentes aos atributos da imutabilidade e onisciência divina?

Quando Cristo voltar no trono da sua glória, aos iníquos que O interpelarem dizendo ‘Senhor, Senhor!’, Ele dirá abertamente: - ‘Nunca vos conheci’. 

Ora, Cristo virá em glória e poder, portanto, ‘conhecedor’ de todas as coisas. Quando é dito: ‘Nunca vos conheci’, implica que Ele ao menos soube do pensamento daqueles iníquos e, que ‘conhecia’ tais homens que diziam ‘Senhor, Senhor’.

Jesus Cristo é sabedor da condição e dos pensamentos deles, pois este é um ‘conhecimento’ essencial para que Ele possa dar o veredito: ‘Nunca vos conheci’ "E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade" ( Mt 7:23 ).

Jesus Cristo é onisciente, e naquele dia dirá: - ‘Nunca vos conheci (ἔγνων ginóskó)’- apesar de saber tudo o que é possível saber acerca deles, até mesmo que eram 'praticantes' de iniquidades.

Certamente o Senhor não dará um falso testemunho dizendo ‘não conhecer’ o que Ele, na verdade ‘conhece’, portanto, há que se resolver este entrave com relação à palavra ‘conhecer’.

Se considerarmos Deus como o sujeito do verbo ‘conhecer’ como adquirir conhecimento e admitirmos que Deus não ‘conheceu’ os que não são seus, contrariamos a onisciência divina e se admitirmos que Deus ‘passou a conhecer’ os que creem no seu nome, contrariamos a imutabilidade divina, pois é impossível Deus agregar um novo conhecimento.

Então, qual deve ser o significado do termo hebraico yādha e do termo grego ginóskó que não contraria a onisciência divina e nem a imutabilidade do seu ser?

 

‘Conhecer’ com conotação carnal

Conforme se observa no clássico de referência bíblica, o verbo ‘conhecer’ também é contemplado com conotação carnal, ou seja, serve para descreve o ‘ato sexual’:

“Conhecer, conhecimento (No hebraico principalmente ידע, yādha‛, substantivo דּעת, da‛ath; no grego γινώσκω, ginōskō, οῖδα, oída; “conhecer/saber plenamente,” ἐπιγινώσκω, epiginṓskō, substantivo γνώσις, gnṓsis ἐπίγνωσις, epignōsis) (...) uma grande parte do uso necessariamente se relaciona com o conhecimento natural (às vezes com um conotação carnal, com Gen 4:1, 17), mas o mais importante está na possessão do conhecimento moral e espiritual”  International Standard Bible Encyclopedia de James Orr, M.A., D.D., Editor General, publicado em 1939 (grifo nosso).

Na sua grande maioria os teóricos rejeitam a possibilidade de se aplicar a conotação carnal no uso das palavras yādha‛ e ginóskó quando o sujeito ou o objeto da oração é Deus.

O editor desta enciclopédia alerta que o termo refere-se ao conhecimento natural e, às vezes ao ato sexual, mas que a importância está em um conhecimento ‘moral e espiritual’, que a seu ver é superior ao conhecimento natural e a conotação sexual.

Mas qual o sentido de ‘conhecer’ no seguinte verso: "Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?" ( Gl 4:9 ).

O apóstolo, através do advérbio de tempo ‘agora’ demonstra que houve um tempo em que os cristãos não eram conhecidos por Deus. Daí a pergunta: como Deus não os conhecia se Ele é onisciente? Como é possível Ele não os conhecer anteriormente e agora passar a conhecê-los e permanecer imutável?

É inviável utilizar o termo ‘conhecer’ com relação ao Onisciente com a conotação ‘veio a conhecer algo’.

É em função deste entrave que é necessário analisar a possibilidade do termo ‘conhecer’ abrigar conotação carnal quando utilizado para com Deus. , apesar de os lexicógrafos rejeitarem a possibilidade.

A problemática em relação à conotação sexual do termo ‘conhecer’ quando aplicado a Deus se instalou devido à demonização da sexualidade, apesar de Deus ter criado o homem macho e fêmea, em outras palavras, dotado de sexualidade. Tal postura é contrária às Escrituras, é semelhante a demonizar a cognição humana, intelectualidade do homem, pois o mesmo Deus que dotou o homem de cérebro desenvolvido, dotou-o de genitais.

No Novo Testamento o termo grego γινωσκω (ginóskó) é empregado em Mateus 1, verso 25 e Lucas 1, verso 77 com a mesma conotação do termo hebraico yādha‛ quando empregado no Gênesis 4, verso 1 e 17. Ambos os termos são utilizados para fazer referencia ao ato sexual entre casais, no Gênesis Adão teve relação sexual com Eva e ela concebeu, e José não teve relação sexual com Maria até que ela deu à luz ao Cristo de Deus.

Ao considerar o que foi profetizado pelo profeta Oséias: "E desposar-te-ei comigo em fidelidade, e conhecerás ao SENHOR" ( Os 2:20 ), qual o significado do termo yādha‛ traduzido por conhecer?

O termo ‘conhecer’ foi utilizado aqui para demonstrar que Deus ‘desposará’ a nação de Israel. É na fidelidade de Israel estarão ligados a Deus. Neste verso o termo hebraico yādha‛ foi utilizado para demonstrar que, após Deus desposar a nação em fidelidade, na obediência ao mandamento haverá uma relação íntima e amorosa.

Os profetas de Deus, por diversas vezes acusaram Judá e Israel de infidelidade, e as figuras utilizadas expunham a infidelidade da nação para com Deus comparando-a com a infidelidade conjugal porque não obedeciam a palavra de Deus “E prostituiu-se Aolá, sendo minha; e enamorou-se dos seus amantes, dos assírios, seus vizinhos” ( Ez 23:5 ); "Foste como a mulher adúltera que, em lugar de seu marido, recebe os estranhos" ( Ez 16:32 e 7 -9).

Quando se lê: "De todas as famílias da terra só a vós vos tenho conhecido; portanto eu vos punirei por todas as vossas iniquidades" ( Am 3:2 ), ou: "Eu te conheci no deserto, na terra muito seca" ( Os 13:5 ), devemos compreender que, dentre todas os povos, somente a Israel Deus tomou por ‘esposa’, mas a desobediência os arrojou para longe da comunhão com o Senhor.

Qualquer outra interpretação com relação ao termo ‘conhecer’ depõe contra a onisciência e imutabilidade divina, pois não há quem Deus não ‘conheça’ no sentido de ‘saber acerca de’.

Deus ‘conhece’ especificamente os que n’Ele confiam, ou seja, Ele não ‘conhece’ por meio de uma escolha unilateral ou através de um pré-conhecimento, presciência, ou prévio saber "O SENHOR é bom, ele serve de fortaleza no dia da angústia, e conhece os que confiam nele" ( Na 1:7 ); "Todavia o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus..." ( 2Tm 2:19 ; 2Sm 7:20 ).

Em ambos os versos, os escritores enfatizam a figura da ‘comunhão íntima’ que advém da obediência. Seria sem propósito o apóstolo Paulo reduzir o ‘saber’ de Deus, que tudo efetivamente vê (sabe), dando a entender que Deus somente sabe acerca dos que são seus, e os que não são seus servos, Ele não sabe.

Um dos aspectos do termo ‘conhecer’ depreende-se da relação ‘senhor’ e ‘servo’, outra figura utilizada para fazer alusão à comunhão íntima.

Quando o apóstolo Paulo disse que o Senhor ‘conhece’ os que lhe pertencem, temos que compreender o ‘conhecer’ em função do termo grego κύριος traduzido por ‘senhor’ quando aplicado a Deus. O termo deve ser tomado no seu sentido aristocrático, com toda a sua severidade, e não conforme o abrandamento de nossos dias, visto que ‘senhor’ tornou-se um simples pronome de tratamento que, se quer, lembra os nobres que eram senhores de escravos ( Mt 25:26 ; Lc 17:10 ).

Quando lemos acerca da propriedade do Senhor: ‘... os que são seus...’, devemos ter em mente a ideia do que era um homem ser propriedade de outro e o que esta figura evidenciava aos leitores da época dos apóstolos. Por exemplo: se considerarmos a concepção da condição de um escravo através da visão dos gregos à época, um servo pertencia de um modo absoluto ao seu senhor como se fizesse parte dele ‘como um membro vivo faz parte do corpo’A Política, Aristóteles, 384 -322 a. C., tradução Nestor Silveira Chaves. Ed. Especial. – RJ: Nova Fronteira, 2011, pág. 25.

Quando a bíblia diz que os cristãos são membros do corpo de Cristo, não vem à tona a figura do servo como um membro vivo que faz parte do corpo do seu senhor e de que ele pertence ao seu senhor de um modo absoluto, pois a figura de um servo é distante da nossa sociedade.

O verso: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra” ( Jo 14:15 -21 e 23; Jo 15:10), deixa claro que a obediência é o que une Deus e os homens, o que se depreende da relação de um senhor com os seus servos. Exige-se obediência onde há mando, ordem. A obediência é requisito essencial para que o homem ‘conheça’ a Deus “Nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamentos” ( 1Jo 2:3 -5).

O termo grego ἀγαπάω (agapaó), comumente traduzido por amor, caridade, benignidade, etc., tem agregado em seu significado o sentido de ‘honra’. Por honra, tem-se o sentido de dever, que pode ser tanto o de cuidado quanto o de obediência.

Quando há mandamento de um lado, e obediência do outro, o ‘mando’ e a ‘obediência’ formam um vínculo perfeito ( Cl 3:14 ), daí a conclusão de que a obediência lança fora o medo "No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena, e o que teme não é perfeito em amor" ( 1Jo 4:18 ); "E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição" ( Cl 3:14 ).

Uma boa análise da relação senhor e servo leva a conclusão de que o amor está para a obediência assim como o ódio para a desobediência, o que torna compreensível o seguinte verso: "Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom" ( Mt 6:24 ).

Há junção perfeita entre o mandamento e a obediência, e é só na obediência ao mandamento de Deus que o homem se faz um com Ele.

Através do ato sexual o homem se torna um com sua mulher. O homem e a mulher fundem-se pelas genitálias, o homem em Deus pela obediência, de modo que a figura da união carnal serve para ilustrar a união do homem espiritual com o Espírito Eterno.

Somente no ato sexual o homem se torna um com sua mulher. O homem e a mulher fundem-se pelas genitálias, o homem em Deus pela obediência, de modo que a figura da união carnal serve para ilustrar a união do homem espiritual com o Espírito Eterno.  

Deus tomará vingança dos que não O conhecem, o que indica que Ele ‘sabe’, ‘tem informação acerca de’ todos os homens, porém, os que não O conhece diz daqueles que não estão em comunhão íntima com Ele, pois não obedeceram ao evangelho de Cristo "Como labareda de fogo, tomando vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo" ( 2Ts 1:8 ).

Mas os que obedecem ao mandamento de Deus, crendo em Cristo, são ‘conhecidos’ de Deus, amigos de Deus assim como o crente Abraão "Basta ao discípulo ser como seu mestre, e ao servo como seu senhor. Se chamaram Belzebu ao pai de família, quanto mais aos seus domésticos?" ( Mt 10:25 ); "Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando" ( Jo 15:14 ).

 

O termo ‘conhecer’ e a união conjugal

A palavra hebraica yādha‛ é utilizada para a intimidade conjugal (Ex.: Adão e Eva em Gn 4:1 ;17 e 25; Elcana e Ana em 1Sm 1:19), no Novo Testamento, o termo grego γινωσκω (ginóskó) é empregado para expressar a mesma ideia da expressão idiomática judaica, como se lê em Mateus 1, verso 25 e Lucas 1, verso 77. É em função desta expressão que dentro do contexto do Novo Testamento o termo grego ‘ginosko’ adquiriu mais um valor semântico, o de relação sexual.

Portanto, é necessário analisar com maior cuidado todas as vezes que o termo foi utilizado pelos apóstolos.

Após destacar que os cristãos são membros do corpo de Cristo, na carta aos efésios, o apóstolo Paulo citou um verso do livro de Gênesis, que diz: “Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne” ( Gn 2:24). Em seguida ele destacou: - “Grande é este mistério, contudo eu me refiro a Cristo e a igreja”

Qual o mistério que se depreende de Gênesis 2, verso 24 e que diz respeito a Cristo e a igreja? Que relação há entre este mistério e o termo ‘conhecer’? 

A resposta destas questões demanda discorrer sobre as nuances do casamento. 

É significativo Adão ter dito: “Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada. Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne” ( Gn 2:23 -24), antes de ter conjunção carnal com sua mulher, pois Eva fora feita à partir de uma costela sua, antes da conjunção carnal, ambos eram a mesma carne. Mas os seus descendentes, tornam-se uma só carne após o ato sexual. 

O primeiro casal não possuía pai e mãe, entretanto, os demais homens teriam. É em função desta peculiaridade que Adão ordena aos seus descendentes que deixem pai e mãe quando unirem-se a sua mulher. Essa determinação tem por objetivo todos os nubentes estejam em igual condição ao primeiro casal quando se tornaram uma só carne. 

Adão não teve pai e mãe quando Deus fez o primeiro casal, em semelhança, todos os outros casais devem deixar pai e mãe para concretizar uma nova união. 

Ao comentar a passagem do Gênesis, o apóstolo Paulo disse: “Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá a sua mulher; e serão dois numa carne. Grande é este mistério; digo-o, porém, a respeito de Cristo e da igreja” ( Ef 5:31 -32). Por que foi citado o dever de deixar pai e mãe para unir-se a mulher como uma figura que contém um grande mistério acerca de Cristo e a igreja? Porque assim como foi Deus quem deu a Adão a sua esposa, que foi tirada da sua carne e sangue enquanto dormia um profundo sono, semelhantemente a igreja foi formada do corpo de Cristo e é participante da sua carne e sangue.

Enquanto Eva foi chamada de mulher por ter sido tomada do homem, a igreja é chamada de esposa do cordeiro por ter sido formada da carne e do sangue de Cristo, e são ambos uma só carne.

A ação do homem em deixar pai e mãe, unindo-se à sua mulher, vai além das implicações de ordem sexual. É necessário desfazer o vínculo que o atrelava aos seus pais para estabelecer um novo vínculo.

O vínculo com pai e mãe pode e deve ser desfeito quando o homem unir-se à sua mulher, e este possui o testemunho de Deus: "Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem" ( Mt 19:6 ).

Apesar de pais e filhos estarem unidos pelo vínculo familiar, tal união precisa ser desfeita visando um propósito específico: uma nova descendência, proveniente de um novo corpo, que resultará em uma nova geração. Esta nova união é ‘perfeita’ (considere o significado do termo grego ‘teleios’ de que a perfeição é funcional, visa um objetivo, e não o conceito que foi construído posteriormente de perfeição moral), pois tem por base o amor (que é o vinculo da perfeição), ou seja, não ‘pode’ ser desfeita, pois ambos tornaram-se um só corpo no ato sexual. O que consagra a união é o ato de o homem deixar pai e mãe unindo-se à sua mulher.

O mistério acerca de Cristo e a Igreja do qual o apóstolo faz referência quando cita o Gênesis, fala da união de Cristo com a Igreja em um só corpo, em um só espírito, pois em Cristo e a igreja temos a realidade de uma figura estabelecida através do primeiro casal.

O mistério que o apóstolo Paulo evidencia quando cita Gênesis 2, verso 24 ( Ef 5:31 ), diz da necessidade do homem deixar pai e mãe quando unir-se à sua mulher. O mistério é grande, pois os homens tem que deixar a geração de adão para se tornar geração de Cristo "Mas vós sois a geração eleita... " ( 1Pd 2:9 ). 

Quando descemos à sepultura, efetivamente deixamos pai e mãe. Ao tomar a própria cruz e seguir após Cristo até o calvário morrendo com Ele, o homem deixa o pecado e a mentira e une-se a Cristo, pois ao ressurgir, ressurge juntamente com Cristo e participante da mesma natureza ( Mt 10:37 -38).

Após alertar que quem ama pai, mãe, filho, filha mais do que o Cristo, não é digno d’Ele, Jesus aponta a cruz, o que representa morte para o mundo, para que o homem se torne digno de Cristo. Quando o homem crê em Cristo, morre para o mundo, é sepultado e ressurge uma nova criatura participante de uma nova família.

O mistério que o apóstolo Paulo evidência quanto a Cristo e a igreja depreendem-se do paralelo que há entre o primeiro e o último Adão, respectivamente Adão e Cristo:

  • Assim como Deus concedeu ao primeiro Adão uma mulher, semelhantemente Deus concedeu ao último Adão, que é Cristo, a igreja ( 1Co 15:45 );
  • Assim como Eva foi tirada da carne de Adão, semelhantemente a Igreja foi formada da carne de Cristo ( Gn 2:21 ; 1Co 11:24 );
  • Assim como Deus fez cair um profundo sono sobre Adão para fazer-lhe uma adjuntora, semelhantemente Cristo desceu à sepultura, pois todos que ressurgem com Ele fazem parte da igreja ( Gn 2:21 );
  • Assim como Adão estava só, Jesus também esteve só ( Is 59:16 );
  • Assim como Adão disse: “Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne” ( Gn 2:23 ), semelhantemente a igreja é osso dos ossos de Cristo e carne da carne de Cristo: "Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos" ( Ef 5:30 );
  • Assim como Deus disse: “Portanto deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e unir-se-se-á à sua mulher, e serão os dois uma só carne” ( Gn 2:24 ; Mt 19:5 ; Mc 10:9 ), semelhantemente Jesus instituiu que: "Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo" ( Lc 14:26 ); "Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim" ( Mt 10:37 );
  • Assim como Adão é terreno e a sua imagem é passada a todos os seus descendentes, semelhantemente, Cristo, o último Adão, é celestial e concede a sua imagem aos que d’Ele são gerados ( 1Co 15:46 -47), o que os tornam membros do seu corpo.

A Escritura apresenta o homem natural primeiro, para depois apresentar o espiritual, pois o natural (Adão) é figura do espiritual ( Rm 5:14 ), e Cristo, por sua vez, a realidade, a verdade "Mas não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois o espiritual" ( 1Co 15:46 ).

É em função do que está escrito: ‘serão dois numa só carne’ que, o que se ajunta a uma meretriz tornar-se uma só carne com ela e o que se ajunta ao Senhor torna-se um mesmo espírito com Ele “Ou não sabeis que o que se ajunta com a meretriz, faz-se um corpo com ela? Porque serão, disse, dois numa só carne. Mas o que se ajunta com o Senhor é um mesmo espírito” ( 1Co 6:16 -17).

Em que sentido foi utilizado pelo apóstolo Paulo o termo grego traduzido por ajuntar (κολλώμενος) em 1Corintios 6, verso 16? Ora, o ajuntar diz de relação íntima.

No verso 17 o apóstolo Paulo utiliza o mesmo termo κολλώμενος para demonstrar o vínculo que se estabelece entre Deus e o homem quando este crê em Cristo.

“2853 κολλαω kollao de kolla (”grude”); TDNT - 3:822,452; v 1) colar, grudar, cimentar, firmar 2) juntar ou firmar bem 3) juntar-se a, aderir a” Strong

O que adão disse sobre a união matrimonial visava a perpetuação do gênero humano sobre a face da terra, ou seja, formação de novas gerações do gênero humano conforme a determinação divina ( Gn 1:28 ), o que prefigurava a união de Cristo com a igreja, que teria como resultado uma nova geração proveniente de uma semente incorruptível que traz à existência homens espirituais.

A mulher foi formada da costela do homem para compor a geração dos homens, como se lê: “E disse Adão: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada” ( Gn 2:23 ), e a igreja é formada da carne e do sangue de Cristo composta de homens espirituais, pois a mulher é figura da igreja, assim como Adão é figura de Cristo.

Assim como Adão, a cabeça de uma família terrena teve a sua mulher tomada da sua carne e dos seus ossos, o que tornou Adão e Eva uma só carne, a noiva de Cristo também foi formada da carne e dos ossos de Cristo, o que torna ambos uma só carne, um só corpo “Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos” ( Ef 5:30 ).

Através da união do primeiro casal temos estabelecida uma geração, a geração de homens terrenos e carnais, sendo que, todos os descendentes de Adão tornaram-se tal qual Adão. Através da união de Cristo e a igreja, que é formada da carne e do sangue dele, é estabelecido a geração de homens celestiais e espirituais, e tal qual Cristo é são gerados os seus descendentes ( 1Co 15:48 ).

Jesus anunciou que: "Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim" ( Mt 10:37 ). Certo é que Ele não estava incentivando os seus seguidores a menosprezarem os seus pais segundo a carne, e nem que invalidassem a lei ( Mc 7:9 ), pois tudo o que ele falava, falava por parábolas "E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos" ( Mc 4:34 ; Os 12:10 ).

Quando se compreende a parábola, verifica-se que Jesus estava ordenando aos seus ouvintes que cada um tomassem a sua própria cruz ( Mt 10:38 ), porém, tal convite não significava morte física, e sim, morrer com Cristo, rompendo com a geração de Adão.

Jesus demonstrou que todos os homens pertencem a uma família, a família dos descendentes de Adão, sobre os quais pesa uma condenação ( 1Co 15:21 -22). Mas, na plenitude dos tempos, na condição de pai de família, Jesus demonstra que estava inaugurando uma nova família e, qualquer que não ‘deixasse’ pai e mãe e não se unisse a Ele, não era digno d’Ele.

Qualquer que não morrer com Cristo, tornando-se participante da sua carne e do seu sangue, não possui comunhão com Ele "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele" ( Jo 6:56 ). Ter comunhão com Cristo é ser participante da sua carne e do seu sangue, o que torna o homem membro do corpo de Cristo, ou seja, ligado à Videira ( Jo 15:4 -5).

Cristo é o último Adão, a cabeça de um corpo, ou o pai de família e, todos que desejam ser ‘mãe’ e ‘irmãos’ de Cristo, tem que deixar (morrer) a natureza carnal para tornarem (ressuscitar) homens espirituais "E, olhando em redor para os que estavam assentados junto dele, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos" ( Mc 3:34 ).

Qual o termo grego ou hebraico mais apropriado para descrever a comunhão entre Cristo e a igreja? Qual o termo que melhor descreve a união íntima e amorosa entre Cristo e a igreja? ( Ef 5:25 ) Qual termo é o mais apropriado para descrever a nova realidade do homem que é participante da carne e do sangue de Cristo, ou seja, o homem que permanece em Cristo e Cristo nele? “Estai em mim, e eu em vós” ( Jo 15:4 ; Ef 5:30 ).

 

Conhecendo a Deus

Na asserção: "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará" ( Jo 8:32 ), o termo traduzido por ‘conhecer’ (ginósko) quando isolado da frase indica o resultado da relação entre uma pessoa e um objeto, ou seja, desta relação não pode ir além de ‘ser informado acerca de’.

Quando da exposição: “E conhecereis a verdade...”, Jesus não estava invocando o sentido da palavra ‘conhecer’ que o latim cognoscere (co + gnos) apresenta, que é ‘saber’, ‘ter noção’, ‘informação de algo (matéria) ou alguém (pessoa)’, e nem o sentido grego de ‘chegar a saber’, ‘vir a conhecer’, ‘obter conhecimento de’, ‘perceber’, ‘sentir’, pois o que está em voga não são abstrações de cunho intelectual.

‘Saber’, ‘vir a conhecer’, ‘aprender’, ‘descobrir’, ‘compreender’, etc., deriva do pressuposto inicial: “Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos” ( Jo 8:31 ). O discípulo é aquele que descobre, aprende, conhece, entende, etc., a partir do que é ensinado pelo seu mestre.

Quando a mente do discípulo compreende e permanece no ensino do seu mestre ocorre o convencimento de cunho intelectual, que faz com que o aprendiz abandone os seus conceitos ao abraçar o ensino do seu mestre. Quando o discípulo se inteira do que é ensinado pelo mestre, ocorre o que em grego é designado μετανοέω (metanoéō), uma mudança de mente, de concepção.

O termo utilizado por Jesus que traduziram por ‘ensino’ é λόγος (logos), termo grego que está muito além de uma palavra, de um vocábulo, expressa a ideia que é transmitida em um discurso, ou seja, uma mensagem completa.

Quando Isaias profetizou acerca do Cristo, deixou registrado que com o seu ‘conhecimento’ o servo do Senhor justificaria a muitos ( Is 53:11 ). O termo hebraico utilizado para ‘conhecimento’ é ‘da àth', é consequência da percepção, do discernimento, da compreensão e da sabedoria do servo do Senhor.

Após compreenderem a mensagem de Cristo e nela permanecerem, então os discípulos ‘conheceriam’ a ‘verdade’. O ‘conhecer’ deve ser interpretado em função da ‘verdade’. Cristo apresentou-se como a ‘verdade’, de modo que aquele que permanece no seu ensino torna-se um com Ele (conhece), o que torna o homem livre da sua condição herdada de Adão.

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