Estudos Bíblicos

"Prossigamos até a perfeição" Hb 6:1

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Deus virou as costas para o seu Filho quando na cruz?

Todos os homens que vem ao mundo entram por Adão, que é a porta larga que dá acesso a um caminho largo que conduz à perdição. Por causa de Adão todos os homens são filhos da ira e da desobediência, ou seja, destinados à separação eterna de Deus. Morrer sem Cristo, ou seja, sem nascer de novo pela fé no Descendente prometido a Abraão é perdição eterna. Em vista desta verdade, qualquer que fosse pendurado no madeiro, o que significava morte física, era maldito, pois seguia para a eternidade alienado de Deus.

Recentemente li o artigo “Dois paradoxos na morte de Cristo”, do pastor, conferencista e escritor americano John Piper e fiquei perplexo com a disposição dos argumentos e da conclusão dele acerca de algumas nuances pertinente à morte de Cristo.

A asserção de que Cristo experimentou a maldição do Pai como sendo o ensino evangélico mais comum é até compreensível, porém, fazer uso da passagem da carta de Paulo aos Gálatas: “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro” ( Gl 3:13 ), para justificar tal consenso é assustador.

O argumento de que foi Deus quem amaldiçoou o seu Filho porque Ele é o autor da lei é espúrio do ponto de vista bíblico. Os argumentos expostos no artigo “Dois paradoxos na morte de Cristo” não refletem o posicionamento das Escrituras. Porém, de toda a argumentação do proeminente escritor no artigo em análise, a aberração maior coube à seguinte declaração: “Portanto, a morte de Cristo pelo nosso pecado e por nossa transgressão da lei foi a experiência da maldição do Pai. É por essa razão que Jesus disse, ‘E perto da hora nona exclamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactâni; isto é, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?’ (Mt 27:46) (...) Na morte de Cristo, Deus lançou sobre ele os pecados do seu povo (Isaías 53.6), os quais odiava. E em ódio por esse pecado, Deus deu as costas a seu Filho carregado de pecados, e o entregou para sofrer todo o poder da morte e da maldição” Piper, John, Artigo: Dois paradoxos na morte de Cristo - grifo nosso (amplamente divulgado na web).

O texto possui imprecisões quanto à interpretação bíblica e reflete um consenso distorcido e divorciado da verdade, pois uma releitura das últimas palavras de Cristo na Cruz deixa nítido que não há paradoxo algum na morte de Cristo e que Deus não amaldiçoou o Seu Filho.

 

Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?

O evangelista Lucas relata que, após Cristo ter rendido o espírito, o centurião que estava ao pé da cruz fez a seguinte confissão: “Na verdade, este homem era justo” ( Lc 23:47 ), e a multidão que assistiu a crucificação voltou batendo no peito ( Lc 23:48 ).

Ora, Cristo era mestre por excelência, e o evento da crucificação foi cenário de uma aula magna de interpretação das Escrituras, além de constituir-se a vitória da humanidade sobre a maldição do pecado.

É de conhecimento que Jesus ao falar às multidões fazia uso do grego ‘Koine’, língua comum ao povo. Porém, quando da crucificação, Jesus falou uma única frase em aramaico, o que chamou a atenção dos evangelistas, que registraram tal fato tão significativo. Quando Ele disse: - Eli, Eli, lamá sabactâni, muitos não compreenderam o que fora dito, a ponto de interpretarem que Cristo clamava por Elias ( Mt 27:47 ).

Os evangelistas, por sua vez, ao fazer menção da frase pronunciada por Cristo, de pronto providenciaram a tradução do que foi dito, que se resume na seguinte frase: - Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?

Naquele instante cruento Jesus não estava lamentando que fora abandonado, antes Ele citou as Escrituras, de modo que, quem o ouviu, posteriormente poderia relacionar o evento da crucificação com o que vaticinara o salmista Davi no salmo 22.

Ao citar as Escrituras, Jesus estava anunciando abertamente a todos que assistiam a crucificação que, naquele instante, cumpria-se o predito no salmo 22. Quando Jesus leu o trecho do profeta Isaías no templo, afirmou categoricamente: - Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos ( Lc 4:21 ), quando bradou na cruz: - Eli, Eli, lamá sabactâni, foi o mesmo que anunciar: - Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos.

O salmo 22 é composto de 31 versos. Jesus citou o primeiro verso em aramaico, o que remeteria os ouvintes a considerarem todo o contexto do salmo.

Sabemos que os salmos, na sua grande maioria, constituem-se em profecias messiânicas, pois os salmistas não falavam de si mesmos, mas do Cristo ( 1Cr 25:1 ). Neste salmo é evidenciada a mesma verdade anunciada por Isaias: “...não tinha beleza nem formosura e, olhando nós para ele, não havia boa aparência nele, para que o desejássemos (...) e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido" ( Is 53:2 ).

Qualquer homem que olhasse para Cristo teria a impressão de que ele era aflito, ferido e oprimido por Deus, e o salmo 22, versos 1 à 8 descreve o final da existência do Cristo entre os homens e o desprezo dos seus algozes.

A expressão: - Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? demonstra quão efetivamente as pessoas que assistiram a crucificação tiveram a impressão de que Cristo era aflito, ferido e oprimido por Deus.

Era evidente o contraste entre Cristo e os demais homens. Nestes oito versos é profetizado a visão que os homens teriam de Cristo: verme e opróbrio dos homens “A ti clamaram e escaparam; em ti confiaram, e não foram confundidos. Mas eu sou verme, e não homem, opróbrio dos homens e desprezado do povo” ( Sl 22:5 -6).

Cristo clamou ao Pai no Getsêmani para que, segundo a vontade do Pai, passasse dele o cálice. Aparentemente Cristo não foi atendido, uma vez que Ele bebeu o cálice que o Pai deu a beber e, na hora da crucificação as pessoas diziam em tom de deboche: “Confiou em Deus; livre-o agora, se o ama; porque disse: Sou Filho de Deus” ( Mt 27:43 ), porém, o livramento do Pai estava além túmulo, algo que os homens não compreendiam: "Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção" ( Sl 16:10 ); "Para que viva para sempre, e não veja corrupção" ( Sl 49:9 ).

Os versos seguintes do salmo 22 demonstram a confiança de Cristo no Pai, pois Ele sabia que fora lançado do ventre materno por Deus ( Sl 22:9 -10). Qualquer que compreende as Escrituras sabe que na morte de Cristo estava a vitória d’Ele e, concomitantemente, a vitória da humanidade. A crucificação é a pedra de toque para se identificar quem crê ou não na salvação providenciada por Deus ( 1Co 1:23 ).

A petição do verso 1 do salmo 22 fica esclarecida à luz do verso 11. A profecia revela as nuances da aflição através dos seguintes rogos: - Deus meu, Deus meu! "E invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei, e tu me glorificarás" ( Sl 50:15 ). Ou seja, o salmo 22 prescreve o modo como Cristo na angustia deveria clamar ao Pai, pois deste modo haveria de glorificar o Pai “Os quais pronunciaram os meus lábios, e falou a minha boca, quando estava na angústia (...) A ele clamei com a minha boca, e ele foi exaltado pela minha língua ( Sl 66:14 e 17).

A profecia revela a confiança do Filho no Pai, de modo que, mesmo na aflição sabia que o Pai seria com Ele “Não te alongues de mim” é expressão de confiança em quem poderia auxiliá-Lo na angustia, pois aquele era o momento de passar pelo vale da sombra da morte, e só Deus poderia auxiliá-Lo “Não te alongues de mim, pois a angústia está perto, e não há quem ajude” ( Sl 22:11 ).

Assim como o profeta anuncia que o Pai haveria de responder e estar com o Filho na aflição “Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei” (Sl 91:15 ), de igual modo o profeta deixa registrado que o Filho haveria de invocar o Pai ( Sl 22: 1 e 11).

Do verso 12 ao 21 são descritos vários eventos pertinentes à crucificação, porém, do verso 23 em diante, o salmista descreve profeticamente uma sobre-excelente vitória em meio ao sofrimento, e apresenta o motivo: “Porque não desprezou nem abominou a aflição do aflito, nem escondeu dele o seu rosto; antes, quando ele clamou, o ouviu” ( Sl 22:24 ).

O verso deixa claro que Deus não desprezou e nem abominou a aflição de Cristo. De igual modo deixa claro que Deus não escondeu d’Ele o seu rosto, ou seja, Deus nunca deu as costas para o seu Filho. É mentira tal ideia que se anuncia em muitos púlpitos evangélicos! Deus não abandonou e nem deu as costa para o seu Filho como divulgam, pois o salmo é claro: “Quando ele clamou, o ouviu” ( Sl 22:24 ); “Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei” ( Sl 91:15 ; Sl 56:13 ; Sl 20:6 ).

Cristo não foi desprezado e nem tido por abominação diante de Deus apesar da aflição e de ser o aflito de Deus, d’Ele não escondeu o seu rosto, o que contraria a ideia de que Deus voltou as costas para o seu Filho em decorrência do pecado da humanidade “E não escondas o teu rosto do teu servo, porque estou angustiado; ouve-me depressa (...) Deram-me fel por mantimento, e na minha sede me deram a beber vinagre” ( Sl 69:17 -21).

Como Deus poderia esconder o seu rosto do sacrifício perfeito? Cristo é o cordeiro morto desde a fundação do mundo. Cordeiro sem mancha e sem mácula! Foi oferecido segundo a vontade de Deus, portanto o sacrifício de Cristo subiu como cheiro suave às narinas do Pai “E andai em amor, como também Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave” ( Ef 5:2 ).

Ao citar o verso primeiro do salmo 22, Cristo despertou entre os que assistiam a crucificação, a curiosidade de aprenderem porque Ele foi descrito pelos profetas como verme e opróbrio da humanidade. Quando questionassem o fato de Ele ter dito em aramaico aqueles palavras, veriam que Ele citava as Escrituras. Quando consultassem as Escrituras, veriam que o salmo cumpriu-se cabalmente naquele evento cruento. Deste modo Cristo glorificou o Pai "Eu glorifiquei-te na terra, tendo consumado a obra que me deste a fazer" ( Jo 17:4 ).

 

 

A maldição da lei

“Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro” ( Gl 3:13 ).

O apóstolo Paulo deixa claro que Cristo nos resgatou da maldição da lei, porém, buscando estabelecer um paradoxo, Piper faz a seguinte pergunta: - A maldição de quem? Em seguida ele arremata a pergunta com o seguinte argumento: “Mas a lei não é uma pessoa para que possa amaldiçoar. Uma maldição só é uma maldição de fato se houver alguém que amaldiçoe. A pessoa que amaldiçoa por meio da lei é Deus, que escreveu a lei. Portanto, a morte de Cristo pelo nosso pecado e por nossa transgressão da lei foi a experiência da maldição do Pai” Idem.

Para Piper só há maldição quando há alguém que amaldiçoa, porém ele erra por não discernir que quem amaldiçoa é o transgressor. A bíblia deixa claro que a maldição é consequência dos atos do transgressor "Como ao pássaro o vaguear, como à andorinha o voar, assim a maldição sem causa não virá" ( Pr 26:2 ). A maldição nunca advém da lei, visto que a lei é santa, justa, e boa. A maldição decorre do primeiro homem que transgrediu a lei, pois Deus a ninguém tenta “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:19 ; Tg 1:13 ).

A mesma argumentação que Piper utiliza ao interpretar o verso em tela é utilizada por alguns ateus quando analisam a determinação que Deus deu a Adão no Éden. Porém, como expressa as Escrituras, não foi Deus quem amaldiçoou Adão, porque a determinação do Éden era expressão do cuidado de Deus, que avisou do risco que havia em se tornar participante do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal.

Não foi Deus quem amaldiçoou Adão, antes foi Adão que buscou e lançou maldição sobre si e sobre toda a sua descendência em virtude da força da penalidade que havia na transgressão do mandamento: certamente morrerás. O que Deus deu a Adão foi uma lei santa, justa e boa, pois foi instituída para preservar-lhe a vida, porém, na lei estava explícita uma maldição ao transgressor e, quando Adão comeu do fruto, o pecado que é excessivamente maligno achou ocasião na força da lei santa, justa e boa que dizia: dela não comerás.

Quando o apóstolo Paulo diz que Cristo nos resgatou da maldição da lei, pois se fez maldição por nós, apresentou a base legal: ‘Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro’. A maldição que Cristo veio dar liberdade ao homem diz da maldição do Éden em decorrência da transgressão do mandamento dado a Adão, e não da maldição da lei mosaica, visto que a lei mosaica foi dada para conduzir os judeus a Cristo, uma vez que os gentios não tinham lei ( Gl 3:24 ; Rm 2:14 ; Ef 2:12 ). Se Cristo morresse para livrar os homens da maldição da lei mosaica, os gentios não seriam contemplados com a salvação, pois a lei foi escrita e dada especificamente aos judeus, ou seja, a maldição que Cristo levou sobre si diz da maldição que decorre da desobediência à lei dada no Éden ( Rm 2:14 ).

Na lei mosaica foi estipulado que, caso alguém houvesse transgredido a ponto de ser condenado ao madeiro, que o transgressor não permaneceria pendurado no madeiro de um dia para o outro ( Dt 21:22 -23).

Por que tal determinação? Porque assim como a serpente foi levantada no deserto, assim importava que o Filho do homem também fosse levantado ( Jo 3:14 ; Jo 12:32 -33 ). Porém, era necessário o Filho do homem descer ao seio da terra no mesmo dia da sua morte, pois estava determinado três dias para que Ele permanecesse no seio da terra e ressurgisse dentre os mortos ( Mt 12:40 ).

Ou seja, a determinação na lei visava impedir que o corpo de Cristo permanecesse na cruz de um dia para o outro, visto que, se assim fosse, o Cristo não passaria três dias no seio da Terra conforme o predito “Quando também em alguém houver pecado, digno do juízo de morte, e for morto, e o pendurares num madeiro, O seu cadáver não permanecerá no madeiro, mas certamente o enterrarás no mesmo dia; porquanto o pendurado é maldito de Deus; assim não contaminarás a tua terra, que o SENHOR teu Deus te dá em herança” ( Dt 22:22 -33).

Ora, a lei foi dada por causa dos transgressores, porém, Cristo não transgrediu, antes foi somente contado entre os transgressores para que pudesse levar sobre si a maldição deles. A maldição não advém de Deus, antes decorre da transgressão, pois Deus a ninguém amaldiçoa.

Cristo ter sido crucificado não significa que Deus amaldiçoou o seu Filho, antes que Ele estava sendo crucificado em decorrência da transgressão da humanidade. É a transgressão que impõe maldição, porém, Cristo foi crucificaram sem transgredir "Mas é para que se cumpra a palavra que está escrita na sua lei: Odiaram-me sem causa" ( Jo 15:25 ).

Mas, porque Cristo foi parar no madeiro? A resposta advém do salmo 22: Porque como servo do Senhor, Jesus se tornou verme, opróbrio dos homens, ferido de Deus.

Todos os homens estavam sob a maldição do Éden, até mesmo os que receberam a lei. Pois a Lei determinava que quem cumprisse todas as suas determinações viveria por ela, mas ninguém conseguiu cumprir toda a lei. Como ninguém cumpriu a lei, permanecia a maldição; "Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las" ( Gl 3:10 )

Quando Cristo veio em cumprimento da lei ( Mt 5:17 ), veio na condição de Filho amado, em quem Deus tinha prazer. Ele não era merecedor de morte, pois foi introduzido no mundo livre de pecado, livre da condenação e da maldição que pesava sobre os homens. Quando Cristo se sujeitou à morte, e morte de cruz, não foi na condição de transgressor que foi suspenso como maldito "E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz" ( Fl 2:8 ).

 

Ele assumiu a condição de maldito não como transgressor, pois quando foi pendurado no madeiro, deixou ser pendurado em obediência à determinação do Pai. Ele sujeitou-se à condição de maldito, deixando ser colocado no madeiro, porém, não como transgressor, mas em obediência àquele que tinha poder de livrá-Lo ( Hb 10:9 -12); "Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro" ( Gl 3:13 ).

Na desobediência de um homem (Adão) muitos foram feitos malditos, mas na obediência do Filho do homem, que se sujeitou à morte de cruz (cálice), humilhando-se a si mesmo, muitos foram feitos justos ( Rm 5:19 ).

Os transgressores eram conduzidos ao madeiro em decorrência dos seus crimes e, permaneciam sob a maldição da transgressão de Adão, mas quando um obediente sem pecado sujeitou-se a tomar a cruz e seguir ao calvário, reuniu os elementos necessários para o resgate da humanidade (de todo que n’Ele crer).

Cristo foi tido como maldito pelos homens em decorrência da cruz, mas na verdade, na cruz estava o Cordeiro que pertencia a Deus. O que os homens reputavam por maldito, aflito, ferido por Deus, na verdade pertencia a Deus, por isso chamado de ‘maldito de Deus’ ( Dt 22:22 -33), o que é muito diferente de ser o amaldiçoado por Deus, pois a maldição só vem em função da transgressão. Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias ( 1Co 1:27 ).

Devemos lembrar também que todos os homens que vem ao mundo entram por Adão, que é a porta larga que dá acesso a um caminho largo que conduz à perdição. Por causa de Adão todos os homens são filhos da ira e da desobediência, ou seja, destinados à separação eterna de Deus. Morrer sem Cristo, ou seja, sem nascer de novo pela fé no Descendente prometido a Abraão é perdição eterna. Em vista desta verdade, qualquer que fosse pendurado no madeiro, o que significava morte física, era maldito, pois seguia para a eternidade alienado de Deus.

Cristo, ao ser pendurado no madeiro, se fez maldição em prol da humanidade, porém, Ele era sem pecado pois, não foi gerado segundo a carne, o sangue e a vontade do varão, antes foi gerado pelo Espírito de Deus no ventre de Maria “Sobre ti fui lançado desde a madre; tu és o meu Deus desde o ventre de minha mãe” ( Sl 22:10 ). Apesar de morrer morte de madeiro, o pecado não possuía domínio sobre o Filho de Deus, pois Ele não foi gerado da semente do pecado, antes foi formado por Deus no ventre de Maria.

Por não ser pecador, a morte não teve domínio sobre Cristo, pois a morte só tem domínio sobre aqueles a quem a lei disse: certamente morreras. Somente sobre esses a lei possui força, ou seja, sobre os descendentes da carne de Adão. Aquela lei santa, justa e boa deu ocasião à separação de Deus em função da desobediência de Adão.

O pecado não possuía força, antes a buscou na lei que diz: '- Certamente morrerás', a força necessária para aprisionar o homem. Por causa da morte proveniente da força da lei, o pecado escraviza os homens, o que foi impossível com Cristo. A morte não pode resistir! Soltas as ânsias da morte, Jesus ressuscitou para gloria de Deus Pai.

Ou seja, ao se oferecer sobre o madeiro, Jesus estava estabelecendo um novo e vivo caminho, através do sacrifício do seu corpo, de modo que a humanidade voltasse a ter acesso a Deus. E qual o acesso a Deus? Que os homens tomem cada um a sua própria cruz sigam após Cristo, sejam crucificados, mortos, sepultados no batismo da morte de Cristo, quando são de novo gerados uma nova criatura em verdadeira justiça e santidade em comunhão com Deus.

Portanto, a morte de Cristo foi substitutiva, visto que qualquer homem que experimentasse a morte física estaria perdido por toda a eternidade. Mas, como Cristo morreu em lugar da humanidade, ninguém que n’Ele crê precisa ficar com medo do pecado e da morte. Ninguém deve temer o madeiro e os sofrimentos dele decorrente! Antes, deve tomar cada um sobre si a sua cruz e seguir após Cristo até o calvário. Deve morrer com Cristo, pois a lei que diz: A alma que pecar esta mesma morrerá, não foi invalidada com a morte de Cristo. Antes ele providenciou o meio de o homem morrer sem provar a morte física e ser glorificado sem descer à sepultura ( Rm 6:3 -8; Cl 3:1 ).

A pena imposta pela lei no Éden não passa da pessoa do transgressor. Como todos pecaram todos devem morrer, porém, se morrer a morte física sem Cristo é condenação, mas se morrer com Cristo conforme Ele conclama a todos para que tomem sobre si a sua própria cruz, quando morrer fisicamente, a morte não mais tem domínio sobre tal pessoa, pois já ressurgiu com Cristo e é uma nova criatura.

Cristo derramou a sua alma na morte e foi contado entre os homens (transgressores), para levar sobre si o pecado de muitos ( Hb 2:9 e 14). Assim Ele fez pelo prêmio que lhe estava proposto: “Por isso lhe darei a parte de muitos, e com os poderosos repartirá ele o despojo; porquanto derramou a sua alma na morte, e foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si o pecado de muitos, e intercedeu pelos transgressores” ( Is 53:12 ; Hb 12:2 ).

Substitutivamente Jesus morreu pelos pecadores ( Is 53:6 ), mas para ser digno d’Ele é necessário ao homem tomar sobre si a sua cruz, chegar ao calvário, morrer com Cristo, ser sepultado na morte pelo batismo na morte de Cristo ( Rm 6:3 ), e ressurgir dentre os mortos na condição de irmão do Primogênito dentre os mortos “E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim” ( Mt 10:38 ).

Hoje o crente se gloria na ressurreição! Quando não crente, foi necessário aproximar-se de Cristo na morte, agora exultamos na ressurreição, pois fomos plantados à semelhança da sua morte e ressurgimos na semelhança da ressurreição de Cristo.

 

 

A morte de Cristo não foi a morte de Deus

Por definição Deus é eterno ( Hb 1:12 ), enquanto do homem, por possuir um corpo de matéria é mortal "Que é o homem mortal para que te lembres dele? e o filho do homem, para que o visites?" ( Sl 8:4 ); "Eu, eu sou aquele que vos consola; quem, pois, és tu para que temas o homem que é mortal, ou o filho do homem, que se tornará em erva?" ( Is 51:12 ).

Deus é eterno. Não há que se falar em morte com relação à divindade. Em primeiro lugar porque Deus não pode alienar-se de si mesmo, ou seja, pecar, o que entendemos por morte, separação, alienação "Para que por duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, tenhamos a firme consolação, nós, os que pomos o nosso refúgio em reter a esperança proposta" ( Hb 6:18 ). Em segundo lugar, Deus não é passível de morte física, porque Ele é Espírito.

Como Deus é Espírito e Vida, não há que se falar que Deus morreu quando contemplamos a cruz de Cristo.

Sabemos que só os homens são passiveis de morrer fisicamente, contudo, os homens possuem uma parte imaterial que é imortal: o espírito.

Lançar mão da doutrina dos Calcedônios, por mais ortodoxa que se entenda ser, para forjar um paradoxo, é leviano. Observe o primeiro exemplo de Piper: ‘... sendo que Jesus Cristo é homem e Deus em uma única pessoa, sua morte foi a morte de Deus?’( Idem).

Ora, através das Escrituras concebemos Deus em três pessoas distintas, porém, coeternas unidas pelo vínculo da perfeição. Através das Escrituras sabemos também que uma das pessoas da divindade resignou-se a deixar a sua condição de divindade, de modo que efetivamente despiu-se da sua glória e tornou-se efetivamente homem.

É por causa desta verdade exarada nas Escrituras que sabemos e compreendemos que Cristo era homem e Deus "Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel" ( Is 7:14 ). Ou seja, na eternidade, a segunda pessoa da divindade, o Verbo, despiu o seu Espírito da glória que lhe pertencia e foi encarnado no ventre de Maria.

Sobre essa verdade comentou o apóstolo Paulo: "Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus. Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz" ( Fl 2:6 -8).

Ou seja, embora Cristo fosse Deus, conforme atesta o testemunho das Escrituras, na condição de homem Jesus foi 100% homem, ou seja, Ele esvaziou 100% a si mesmo dos seus atributos divinos.

Cristo era Deus antes de ser encarnado, ou seja, era onisciente, onipresente e onipotente ( Jo 1:30 ), de modo que Ele criou todas as coisas e nada do que foi feito se fez ( Jo 1:3 ). Mas, para ser homem, Cristo teve que se despir completamente da sua divindade. Para que Cristo em tudo fosse semelhante aos homens e, inclusive sujeito à morte, teve que despir-se completamente, totalmente dos seus atributos "Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo" ( Hb 2:17 ); “... fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos” ( Hb 2:9 ).

Portanto, antes de ser encarnado, Cristo possuía todos os atributos da divindade, porém, na condição de homem, Cristo não possuía nenhum atributo da divindade. Ele tornou-se homem, despido dos atributos da divindade, de modo que Ele tornou-se participante da carne e do sangue e sujeitos as mesmas fraquezas de todos os homens, inclusive, sujeito à morte, porém, sem pecado ( Hb 4:15 ).

Portanto, Cristo despiu-se 100% da sua glória e assumiu a natureza humana. Ele morreu por ser 100% homem, e ressurgiu dentre os mortos glorificado com 100% do poder que possuía antes de ser encarnado "E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse" ( Jo 17:5 ).

Falando na linguagem bíblica, Deus fez o homem à sua imagem: “E criou Deus o homem à sua imagem” ( Gn 1:27 ), portanto, ao esvaziar-se dos seus atributos, Deus assumiu a figura da sua imagem. Deus esvaziado de seus atributos não assumiu a condição de anjo, ou de qualquer outra criatura, antes assumiu a figura da sua imagem que concedera a Adão "No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir" ( Rm 5:14 ), pois a expressa imagem do Deus invisível foi a nova condição que Cristo assumiu ao ressurgir dentre os mortos ( Hb 1:3 ), condição que passou a compartilhar com a igreja "Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor" ( 2Co 3:18 ; 1Jo 3:2 ).

Ora, a divindade de Cristo não foi perdida quando da encarnação, pois o escritor aos Hebreus é claro quanto à adoração de Cristo: “E outra vez, quando introduz no mundo o primogênito, diz: E todos os anjos de Deus o adorem” ( Hb 1:6 ), mas as propriedades próprias à divindade Ele despiu-se, de modo que Jesus roga ao Pai que se lhe dê a glória que possuía anteriormente.

 

Embora despido da sua glória, Cristo não abriu mão de que os homens o reconhecessem como Deus e da adoração que lhe era devida, visto que o Pai nas Escrituras não lhe vetou tal prerrogativa. Entre os homens Jesus identificou-se como o ‘Eu Sou’ e foi adorado "Ele disse: Creio, Senhor. E o adorou" ( Jo 9:38 ; Jo 8:58 ).

Se considerarmos de modo diferente da exposição das Escrituras, incorreremos em imprecisões: “O mistério da união entre a natureza humana e a divina na experiência da morte não nos é revelado. O que sabemos é que Cristo morreu, e que no mesmo dia ele foi ao paraíso (“Hoje estarás comigo no paraíso,” Lucas 23.43). Sendo assim, parece ter havido consciência na morte, de modo que a união contínua entre a natureza humana e a divina não precisasse ser interrompida, ainda que Cristo tenha morrido somente em sua natureza humana (Idem) grifo nosso.

  1. Assim como os homens são sujeitos à morte física, Cristo sujeitou-se à condição humana de modo que efetivamente morreu; Cristo morreu porque sofreu o término das suas funções vitais, porém, o seu espírito seguiu no pós-morte o mesmo caminho que é comum a todos os homens "E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu" ( Ec 12:7 ); Ele despiu-se da sua glória e tornou-se homem, ou seja, participante da carne e do sangue. A bíblia é clara: Cristo morreu, foi sepultado e ressurgiu ao terceiro dia. A diferença entre Cristo e a humanidade após descer à sepultura está no fato de que o corpo de Cristo não viu corrupção, pois ressurgiu dentre os mortos;
  2. Assim como os homens possuem um corpo físico mortal, Cristo possuía um corpo mortal; assim como todos os homens possuem um espírito imortal, Cristo na eternidade era o Espírito imortal que, ao despir de sua glória, foi encarnado; já na encarnação Cristo passou a depender exclusivamente do Pai, pois da sua concepção no ventre de Maria Jesus já estava despido de sua glória e poder; é por isso que o salmista registra: ‘Sobre ti fui lançado desde a madre’ (v. 10); da mesma forma que Deus não pode morrer, o espírito dos homens não podem morrer; por proceder de Deus jamais os espíritos dos homens deixarão de existir;
  3. Deus na sua glória não morre, ou seja, é eterno, imortal. Mas, quando Cristo despiu-se da sua glória, assim o fez de modo que pudesse provar a morte física, de modo que ele veio em semelhança da carne do pecado. Quando Cristo morreu foi o seu corpo físico que morreu; quando falamos de morte, devemos considerar que a morte do homem se dá quando o espírito do homem deixa de habitar o corpo; quando Cristo morreu o seu espírito que fora despido da glória que possuía separou-se do corpo, de modo que o espírito foi entregue nas não de Deus, e o seu corpo sepultado;
  4. Quando Cristo morreu, permaneceu consciente na morte assim como todos os homens permanecem conscientes, pois não é o corpo que dá consciência, antes é o espírito do homem que lhe dá entendimento “Na verdade, há um espírito no homem, e a inspiração do Todo-Poderoso o faz entendido” ( Jó 32:8 );
  5. Compartilhar da natureza divina é factível a todos os homens, desde que creiam em Cristo ( 2Pe 1:4 ). Quando a bíblia fala de Cristo, ela apresenta o conceito de ‘despir-se de sua glória’; ao despir-se da sua glória, a comunhão de Cristo com o Pai não foi interrompida, e nem perdeu a prerrogativa de ser adorado por suas criaturas; o que foi interrompido foi a prerrogativa de Cristo utilizar da Sua glória, do seu poder; quando na semelhança da carne do pecado, Cristo era homem e em comunhão com o Pai, porém, despido da sua glória; quando foi morto, Jesus despiu-se da carne do pecado e passou a estar em espírito por um período de três dias; após ressurreto, Jesus passou a estar de posse de todo o poder que possuía antes;
  6. Portanto, à luz das Escrituras, Jesus realmente morreu, assim como todos os homens morrem. Embora em comunhão com o Pai, teve que entregar o espírito ao Pai quando morreu, assim como o faz todos os homens; os homens são naturalmente homens, ou seja, menores que os anjos, porém, podem ser carnais (gerados de Adão) ou espirituais (gerados de novo em Cristo); deste modo é impossível ao homem possuir duas naturezas: uma carnal e outra espiritual; Cristo, por sua vez, apesar de ser participante de um corpo semelhante à carne do pecado, contudo, por ter sido gerado por Deus no vente de Maria nunca foi carnal, ou seja, desde o seu nascimento Jesus era espiritual, embora possuísse um corpo carnal ( 1Co 15:45 -47).

Cristo, sendo Deus esvaziou-se da sua glória e se fez homem, o que possibilitou que Cristo estivesse sujeito à morte, sujeito a que o espírito se separe do corpo, pois a morte física é uma faculdade pertinente somente aos homens “Ora, ao Rei dos séculos, imortal, invisível, ao único Deus sábio, seja honra e glória para todo o sempre. Amém” ( 1Tm 1:17 e 6:16); "Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos" ( Hb 2:9 ).

Portanto, podemos dizer que Cristo é Rei dos séculos, imortal, invisível e, a Sabedoria de Deus, e a Ele seja a honra e a glória para todo o sempre, pois como homem, ao ser gerado no ventre de Maria, Cristo nasceu, cresceu e, quando adulto, na plenitude dos seus dias, Jesus foi cortado da terra dos viventes "Da opressão e do juízo foi tirado; e quem contará o tempo da sua vida? Porquanto foi cortado da terra dos viventes; pela transgressão do meu povo ele foi atingido" ( Is 53:8 ).

As agruras e o terror da morte assombraram o Cristo do mesmo modo que aterroriza todo e qualquer mortal ( Sl 56:3 ), pois após despir-se da sua glória Cristo se fez homem, conforme foi prometido a Abraão, segundo a linhagem de Davi ( Mt 26:36 -37; Lc 22:44 ).

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