Estudos Biblicos

Cristo foi desamparado na Cruz?

postador por: Claudio F. Crispim
19 Mai 2012
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Cristo aparentava estar desamparado por Deus diante dos homens para que a justiça de Deus fosse estabelecida. Segundo a visão limitada dos homens Cristo foi desamparado por Deus "Confiou em Deus; livre-o agora, se o ama; porque disse: Sou Filho de Deus" ( Mt 27:43 ), mas aquele momento na cruz remete a um sacrifício que subiu como cheiro suave às narinas de Deus.


"E perto da hora nona exclamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactáni; isto é, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? E alguns dos que ali estavam, ouvindo isto, diziam: Este chama por Elias, e logo um deles, correndo, tomou uma esponja, e embebeu-a em vinagre, e, pondo-a numa cana, dava-lhe de beber. Os outros, porém, diziam: Deixa, vejamos se Elias vem livrá-lo. E Jesus, clamando outra vez com grande voz, rendeu o espírito" ( Mt 27:46 -50)

 

A Bíblia explicada de S. E. Mcnair publicada pela editora CPAD diz:

"Jesus nunca falou em ser desamparado pelo Pai, mas sendo 'feito pecado' por nós, sentiu-se abandonado por Deus (46)"  McNair, S. E. A Bíblia explicada/S. E. McNair. - 4ª. ed. - Rio de Janeiro: CPAD, 1983, pág. 331.

Ouvi vários sermões acerca desta passagem bíblica, e nela os pregadores afirmavam: "Por Jesus levar sobre si o pecado da humanidade, Deus não suportou ver o pecado, e virou as costas para o seu Filho".

Você concorda com tal afirmação? Jesus estava desamparado por Deus quando bradou na cruz: "Eli, Eli, lamá, sabactáni?" ?

Antes de qualquer conclusão, analise!

O ministério de Jesus teve como característica principal o ensinamento acerca do reino de Deus. Desde tenra idade ele esteve ensinado os seus compatriotas "Todos os que o ouviam admiravam-se da sua inteligência e respostas" ( Lc 2:47 ).

Quando Jesus assentou-se no templo e achou o texto no Livro de Isaías que dizia: "O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar aos pobres" ( Lc 4:18 ), ele afirmou: "Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos" ( Lc 4:21 ).

Quando Jesus esteve pregado à cruz não foi diferente! Ao bradar em hebraico "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?", Ele não estava alegando ou reclamando que o Pai tinha lhe abandonado.

Quando Jesus bradou: "Eli, Eli, lamá sabactâni", deixou aos seus ouvintes uma última lição da mesma forma que foi deixado na sinagoga no início do seu ministério ( Lc 4:21 ). Como?

Jesus bradou utilizando-se de palavras idênticas ao do Salmo 22, o que indicava que aquela Escritura também cumpria-se aos ouvidos dos que assistiam a crucificação.

Observe que os ouvintes acharam que ele estava clamando por Elias "E alguns dos que ali estavam, ouvindo isto, diziam: Ele chama por Elias" ( Mt 27:47 ).

Caso Jesus estivesse reclamando que Deus o abandonara, simplesmente teria bradado em latim ou grego! Por que Ele bradou em especificamente em aramaico, causando uma confusão no povo acerca do que clamava?

Outros diziam: "Deixa, vejamos se Elias vem salvá-lo" ( Mt 27:49 ), e Jesus bradou novamente, e entregou o espírito ( Mt 27:50 ).

Observe que"Pai, na tuas mãos entrego o meu espírito" a penúltima frase antes de Jesus entregar o seu espírito foi: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?", e que, logo em seguida disse a última frase que é: .

Você notou a diferença entre o primeiro e o último brado? No primeiro Ele fala 'Eli, Eli', que quer dizer Pai em aramaico. Já a última vez que Ele clamou por Deus, ele faz uso da língua de costume: 'Pai'.

O que isto significa? Significa que o primeiro brado é somente uma citação do salmo 22, e o segundo brado a última oração do Filho ao Pai.

Observe o texto seguinte:

"E foi-lhe dado o livro do profeta Isaías; e, quando abriu o livro, achou o lugar em que estava escrito: O Espírito do Senhor é sobre mim, Pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados do coração, a pregar liberdade aos cativos, E restauração da vista aos cegos, A por em liberdade os oprimidos, A anunciar o ano aceitável do Senhor. E, cerrando o livro, e tornando-o a dar ao ministro, assentou-se; e os olhos de todos na sinagoga estavam fitos nele.21 Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos" ( Lc 4:17 -21).

Ao citar um texto do Antigo Testamento Jesus demonstrou que aquele trecho havia cumprido cabalmente aos ouvidos do povo!

Da mesma forma ao bradar "Eli, Eli, lamá sabactáni", Jesus estava demonstrando que o Salmo 22 estava cumprindo-se cabalmente ante os olhos dos que assistiam a crucificação.

É sabido que uma situação inusitada, cruenta ou chocante fixa-se na memória do ser humano. Pergunto: Cristo perderia a última oportunidade de esclarecer e fixar na memória d



os que estavam assistindo mais um texto bíblico? Não!

Uma pequena citação das Escrituras era suficiente para trazer à lembrança do ouvinte todo o texto, visto que, a memorização das passagens bíblicas era necessário. 

De maneira alguma Cristo foi abandonado pelo Pai! Deus jamais abandona os seus filhos, quanto mais o seu Filho Amado.

Quando se lê e estuda o Salmo 22, é preciso analisá-lo do ponto de vista profético.

O Salmo 22 é eminentemente messiânico, e demonstra com clareza alguns dos eventos mais relevantes da vida do Messias entre os homens.

Este salmo fixa-se em descrever a condição de Cristo como o Servo do Senhor quando pregado na cruz.

Analisando os versículos de 1 a 6, fica evidente que o salmista em momento algum reclamou que Deus o abandonara.

Da mesma forma, ao clamar: 'Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?', Jesus não está salientando que fora abandonado por Deus. Pelo contrário!

Por que o Salmo fala de desamparo? Seria porque Deus haveria de virar as costas para o seu Filho na cruz? Não!

Os versículos seguintes do mesmo Salmo demonstram outra realidade.

1º) O salmista demonstra que os pais (patriarcas, profetas, reis, etc) clamaram a Deus no passado e Deus os livrou. Isto demonstra que todos aqueles que depositaram confiança em Deus obtiveram livramento. E o que aconteceu com Cristo? Ele clamou e não foi atendido? Observe como Jesus clamou ao Pai: "E, indo um pouco mais para diante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres" ( Mt 26:39 ). Cristo foi 'desamparo' em relação ao pedido (passa de mim este cálice), e não em relação a sua pessoa. Observe que os versículos 2 à 6 do Salmo 22 enfatizam o pedido, a confiança e o livramento da parte de Deus;

2º) Por que o pedido de Cristo não foi atendido, ou melhor, por que ele clamou e não foi (ouvido)? Acaso foi porque Deus o abandonou? Não! Deus não atendeu ao pedido de Cristo porque ele é santo. A santidade de Deus não podia ceder e dar lugar a vontade de Cristo. A santidade de Deus estabeleceu a vontade divina ( Sl 22:3 ).

3º) E o Salmo arremata: Sl 22:4 -6 - Os pais confiaram em Deus e foram atendidos em suas petições, porém, por causa da paixão da cruz Cristo não foi atendido, antes se estabeleceu a vontade de Deus. Enquanto os pais foram atendidos, Cristo humilhou-se até a condição de verme, opróbrio dos homens. A condição de verme é porque Cristo submeteu-se a vontade do Pai, ou porque foi desamparado na cruz? É certo que Jesus estava na condição de verme porque Deus é santo!

Note o contraste: os pais clamaram e não foram confundidos, e agora, o Filho clama e não é atendido ( Sl 22:1 -6).

"Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que te alongas do meu auxílio e das palavras do meu bramido? Deus meu, eu clamo de dia, e tu não me ouves; de noite, e não tenho sossego. Porém tu és Santo, tu que habitas entre os louvores de Israel. Em ti confiaram nossos pais; confiaram, e tu os livraste. A ti clamaram e escaparam; em ti confiaram, e não foram confundidos. Mas eu sou verme, e não homem, opróbrio dos homens e desprezado do povo" ( Sl 22:1 -6).

Enquanto os pais foram atendidos em seus pedidos e escaparam, o Cristo de Deus assumiu a condição de verme e opróbrio dos homens. Por causa da condição de 'opróbrio' dos homens Jesus teve alongado de si o auxílio divino, ou seja, o auxílio de Deus veio, mas não conforme as palavras do bramido de Cristo "Meu Pai, se é possível passa de mim este cálice..." ( Mt 26:39 ).

O pedido de Jesus foi dentro das possibilidades, visto que Ele veio para fazer a vontade do Pai ( Jo 6:38 ).

Cristo aparentava estar desamparado por Deus diante dos homens para que a justiça de Deus fosse estabelecida. Segundo a visão limitada dos homens Cristo foi desamparado por Deus "Confiou em Deus; livre-o agora, se o ama; porque disse: Sou Filho de Deus" ( Mt 27:43 ), mas aquele momento na cruz remete a um sacrifício que subiu como cheiro suave às narinas de Deus.

Deus não desamparou Jesus sobre a cruz, visto que, a oferta do corpo de Cristo não foi em pecado. Cristo se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, o que demonstra que Deus não virou o seu rosto quando Cristo estava sobre a cruz, como diz a lenda popular ( Hb 9:14 ).

Cristo não estava em pecado quando na cruz, pois ele não conheceu o pecado. Deus O fez pecado, ou seja, Jesus assumiu a posição de pecado (maldito) quando foi pendurado no madeiro "Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus" ( 2Co 5:21 ).

Deus em momento algum rejeitou a pessoa de Cristo, uma vez que no próprio Salmo 22 temos: "Pois não desprezou nem abominou a aflição do aflito; não escondeu dele o seu rosto, mas quando ele clamou, O ouviu" ( Sl 22:24 ).


postador por: Claudio F. Crispim

Nasceu em Mato Grosso do Sul, Nova Andradina, em 1973. Aos 2 anos, sua família mudou-se para São Paulo, onde vive até hoje. O pai ‘in memória’ exerceu o oficio de motorista de ônibus coletivo e a mãe comerciante, ambos evangélicos. Claudio Crispim cursou o Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública na Academia de Policia Militar do Barro Branco e, desde 2004 exerce a função de Tenente da Policia Militar do Estado de São Paulo. É casado com Jussara e é pai de dois filhos, Larissa e Vinícius. É articulista do Portal Estudo Bíblico (www.estudobiblico.org), com mais de 200 artigos publicados e distribuídos gratuitamente na web.

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