Estudos Biblicos

Nefilim

postador por: Claudio F. Crispim
22 Mai 2012
18675
         


Os anjos são seres espirituais ( Hb 1:14 ), sem um corpo físico composto de matéria à base de carbono. Apesar do poder que possuem e da possibilidade de assumir a forma humana, não podem transmutar os seus corpos celestiais em corpos de composto orgânico. O próprio Senhor Jesus, apesar do poder que lhe é inerente, para alcança um corpo semelhante a dos homens, foi gerado no ventre de Maria para ser introduzido neste mundo.


 

"Viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram" ( Gn 6:2 )

Há várias teorias acerca da origem dos gigantes que apareceram sobre a face da terra antes do dilúvio ( Gn 6:1 -4), e dentre elas destaca-se o posicionamento de que os ‘filhos de Deus’ (anjos caídos - demônios), coabitaram com as ‘filhas dos homens’ (mulheres) dando origem aos Nefilins, os valentes que houve na antiguidade (os homens de fama).

Por que os demônios coabitariam com as filhas dos homens?

A bíblia não apresenta uma resposta, visto que a pergunta acima é descabida! Como? A pergunta correta é: É factível um anjo (caído ou não) coabitar, gerar filhos, ter desejo sexual, etc?

Para motivar a primeira pergunta, muitos ajuízam de si mesmos que os demônios coabitaram com as mulheres porque são perversos, amorais e imperfeitos, ou que os demônios intentaram atrapalhar a linhagem de Cristo.

Ao que tudo indica, tal posicionamento deriva de uma má interpretação do verso 2 e 4 do capítulo 6 do livro de Gênesis, influenciado por escritos apócrifos, como é o caso do livro de Enoque, e algumas lendas judaicas, porém, diante de especulações teóricas, o que importa é a bíblia. O que a bíblia diz? É factível um anjo coabitar e ter filhos?

A Bíblia nos apresenta um norte a seguir em busca de uma resposta segura.

Alguns judeus pertencentes a certa seita judaica que não acreditavam: a) na ressurreição dos mortos; b) na existência dos anjos, e; c) na existência de espíritos, querendo surpreender Jesus em alguma contradição envolvendo a lei de Moisés, lembraram o seguinte: “Mestre, Moisés nos deixou escrito que, se o irmão de algum falecer, tendo mulher, e não deixar filhos, o irmão dele tome a mulher, e suscite posteridade a seu irmão” ( Lc 20:28 ; At 23:8 ).

Com base na lei mosaica os saduceus propuseram uma estória acerca de uma mulher que, após o marido falecer sem deixar descendência, acabou sendo legada a outros seis irmãos segundo o que determinava a lei de Moisés, sendo que todos os irmãos que coabitaram com a desafortunada morreram sem conseguir prover descendência ao primeiro irmão.

Da estória propuseram a seguinte pergunta: “Portanto, na ressurreição, de qual dos sete será a mulher, visto que todos a possuíram?” ( Mt 22:28 ).

Após alertar os saduceus que erravam por não conhecer as escrituras ( Mt 22:29 ), Jesus faz uma afirmação: “Os filhos deste mundo casam-se, e dão-se em casamento...” ( Lc 20:34 ). É patente que casar e se dar em casamento é algo próprio ao mundo dos homens, e não ao ‘mundo’ dos seres espirituais, dos anjos, quer caídos ou não.

Ou melhor, o casamento ou o dar-se em casamento é apresentado em conexão à capacidade de procriação, que é próprio aos homens, pois para este mister foram abençoados “E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra...” ( Gn 1:28 ).

Porém, com relação ao mundo vindouro, Jesus é claro: “Mas os que forem havidos por dignos de alcançar o mundo vindouro, e a ressurreição dentre os mortos, nem hão de casar, nem ser dados em casamento...” ( Lc 20:35 ). Casar é facultado e procriar é capacidades inerentes a este mundo, atributo que será tirado dos homens que alcançarem a ressurreição dentre os mortos.

Ora, o que se depreende da exposição de Cristo é que a capacidade de procriação do homem tem relação direta com a morte “... nem hão de casar, nem ser dados em casamento; Porque já não podem mais morrer” ( Lc 20:35 ). Quando o homem deixar de ser sujeito a morte não mais há de casar e nem de ser dado em casamento, isto porque serão iguais aos anjos.

Como a capacidade de procriação foi dada em decorrência de o homem ser sujeito a morte, segue-se que aos anjos não foi dado tal capacidade, visto que os anjos não são sujeitos à morte. Observe que Jesus, ao ser introduzido neste mundo foi feito menor que os anjos em decorrência da paixão da morte, o que deixa evidente que os anjos não tem risco quanto a perca das funções vitais ( Hb 2:9 ).

Como os dons de Deus são irrevogáveis "Porque os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento" ( Rm 11:29 ), a capacidade que possuíam os anjos antes da queda não foi tirada, e eles, por si só jamais adquiririam a capacidade de procriação. Procriar é capacidade humana, o que é impossível aos anjos apesar do poder que possuem. 

Vemos que os anjos foram chamados a existência por ordem divina, como se lê: “Louvai-o, todos os seus anjos; louvai-o, todos os seus exércitos (...) Louvem o nome do SENHOR, pois mandou, e logo foram criados” ( Sl 148:2 e 5), e todos foram criados em um mesmo evento. Diferente dos homens, os anjos não foram criados macho e fêmea, condição essencial para que se possa ser dado em casamento, o que leva a procriação ( Gn 1:27 ).

Os anjos são seres espirituais ( Hb 1:14 ), sem um corpo físico composto de matéria à base de carbono. Apesar do poder que possuem e da possibilidade de assumir a forma humana, não podem transmutar os seus corpos celestiais em corpos de composto orgânico. O próprio Senhor Jesus, apesar do poder que lhe é inerente, para alcança um corpo semelhante a dos homens, foi gerado no ventre de Maria para ser introduzido neste mundo.

Fica claro que a união conjugal foi instituída por Deus em decorrência da necessidade de o homem procriar, o que é imprescindível para a manutenção da espécie. Ou seja, tal necessidade não recai sobre os anjos, visto que a morte não os alcança a semelhança dos homens.

O que pensar acerca do exposto no livro do Gênesis, no capítulo 6?

“E ACONTECEU que, como os homens começaram a multiplicar-se sobre a face da terra, e lhes nasceram filhas” ( Gn 6:1 ) – Observe que os homens (homem e mulher) começaram a multiplicar-se. O fato de o escritor ter especificado que os homens começaram a multiplicar demonstra que, culturalmente o homem desempenhava o papel de perpetuação da descendência.

Como é cediço, caso o homem morresse sem descendência masculina ( Gn 19:32 ) a mulher seria legada ao irmão do falecido para que lhe provesse descendência (ex.: Lei do levirato), o que n&atild



e;o era próprio à mulher. Isto demonstra que, o foco da abordagem textual é o homem (macho), indivíduo que estabelece e perpetua a linhagem, como se verifica nas genealogias Bíblica ( Gn 5:1 -32 ; Dt 25:5 ). A mulher não é apresentada nas genealogias como perpetuadora da linhagem, e sim o homem.

Neste sentido a Bíblia aponta o homem como aquele que gera, e a mulher como coadjuvante: "Abraão gerou a Isaque; e Isaque gerou a Jacó; e Jacó gerou a Judá e a seus irmãos; E Judá gerou, de Tamar, a Perez e a Zerá; e Perez gerou a Esrom; e Esrom gerou a Arão" ( Mt 1:2 -3).

Observe que nas genealogias aparece somente o nome dos filhos homens, e este é o foco do texto, por estar tratando de linhagem ( Gn 5:1 -32). Nas genealogias aparece o nome dos filhos, porém, o nome das filhas era dispensável, sendo indicado que foi gerado filhos e filhas ( Gn 5:4 ).

Com a multiplicação dos homens (entende-se homens como perpetuador de linhagem) nasceram filhas. Estes homens referem-se aqueles que não criam em Deus ( Gn 7:1 ). Havia também homens que criam em Deus e eram nomeados filhos de Deus, porém, estes não eram zelosos quanto à linhagem, visto que não cuidavam da sua linhagem como ocorreu com Noé ( Gn 6:9 ). Diferente dos outros filhos de Deus, Noé foi o único que preservou a sua linhagem perfeita ( Gn 6:9 ).

Observe que quando a linhagem perfeita estava perto da extinção, Deus mandou o dilúvio e preservou Noé. Após o dilúvio, os homens novamente se multiplicaram, e quando a linhagem perfeita estava novamente em risco, Deus ordena a Abrão que saísse do meio da sua parentela, pois através dele seria feito uma grande nação, onde a linguagem seria preservada ( Gn 12:1 ). Percebe-se que a família de Abrão se perpetuava entre os seus, com o fito de preservar a linhagem perfeita, cuidado que se observa quando se providenciou uma esposa para Isaque ( Gn 24:3 -4).

Quando se estabeleceu a união dos ‘filhos de Deus’ com as 'filhas dos homens' que se multiplicaram, surgiram os homens valentes da antiguidade, descendentes desta nova linhagem espúria.

O erro se instala na interpretação destes versos quando o leitor deixa de considerar que os livros da Bíblia originalmente não possuíam divisões em capítulos e versículos. Interpretar o capítulo 6 de Gênesis sem se ater ao capítulo 5, que apresenta a linhagem de Noé em contraste com a linhagem dos demais homens, levará o interprete a inúmeros equívocos.

“Viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram” ( Gn 6:2 ) – As 'filhas dos homens' que se multiplicaram eram formosas, o que despertou o interesse dos 'filhos de Deus'. A passagem bíblica faz referência a quais filhos de Deus? Aos anjos? 

Ora, os anjos são nomeados filhos de Deus assim como o é os filhos dos homens em outras passagens bíblicas, porém, isto não implica que, neste texto especifico, a nomenclatura aponte para os anjos, quiçá os decaídos.

Quem seriam os filhos de Deus? No texto em comento, verifica tratar-se da linhagem escolhida que haveria de trazer o Messias ao mundo dos homens. Observe que, após apresentar a linhagem escolhida no capítulo 5, no capítulo 6 é apresentado a problemática envolvendo os filhos de Deus com as filhas dos homens que se multiplicaram. 

Observe que em Israel era vetado aos filhos de Jacó casarem com mulheres estrangeiras, o que foi a bandeira da reforma nacional estabelecida por Neemias e Esdras ( Ed 10:10 ; Ne 13:26 ). A lei vetava expressamente o casamento com estrangeiras "E tomes mulheres das suas filhas para os teus filhos, e suas filhas, prostituindo-se com os seus deuses, façam que também teus filhos se prostituam com os seus deuses" ( Ex 34:16 ).

Neste sentido a geração de Noé era perfeita, pois ele andava com Deus e mantinha sua geração sem contaminação, pois sendo um dos filhos de Deus não escolhera dentre as filhas dos homens mulheres para si “Estas são as gerações de Noé. Noé era homem justo e perfeito em suas gerações; Noé andava com Deus ( Gn 6:9 ).

O que se observa dos versos iniciais de Gênesis 6, que neles está inserido o motivo pelo qual Noé não foi preservado quando veio as águas do dilúvio. Multiplicaram-se os homens sobre a face da terra, e a descendência dos homens justos estava em risco devido a muitos terem escolhido mulheres segundo o seu coração, e não segundo os preceitos de Deus.

Com isto, a longevidade dos homens foi reduzida, pois deste modo, a possibilidade de os filhos de Deus tomarem mulheres dentre as filhas dos homens diminuiria.

"Havia naqueles dias gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens e delas geraram filhos; estes eram os valentes que houve na antiguidade, os homens de fama" ( Gn 6:4 ) - Mas, durante a narração histórica, o escritor situou no tempo quando se deu tal evento: a existência de gigantes na terra é o marco da narrativa ( Gn 6:4 ). Ou seja, o texto não aponta que a origem dos gigantes decorra da união de anjos decaídos com as mulheres, antes demonstra a que época os eventos descritos se deram. Ou seja, havia gigantes na terra quando Deus reduziu a longevidade dos homens.

Quando os homens da linhagem justa proveram descendência através da filhas dos homens ( Gn 6:4 ), nasceram homens que se tornaram os valentes e homens de fama, mas os gigantes também habitavam a terra na mesma época.

Foi neste cenário que aparece a figura de Noé, homem justo e de linhagem perfeita.

Daí, resta a pergunta: Se os demônios produziam Nefilins, por que não os produzem até os nossos dias? Lembrando que os dons de Deus são irrevogáveis, é um contra senso alegar que Deus deu um ponto final nas relações que os demônios tiveram com os seres humanos.

Relacionar o exposto por Judas como sendo este ponto final que Deus deu aos demônios é espúrio “E aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia” ( Jd 1:6 ).

Faz-se necessário esclarecer que, apesar do poder que os anjos possuem, nenhum anjo possui o pode criativo de dar vida, ou de trazer a existência outro semelhante a eles. Procriar é uma capacidade dada aos homens proveniente da vontade de Deus, pois ao abençoá-los, o homem gera semelhantes em decorrência do poder que Deus lhes concedeu.

Por fim, tal capacidade só foi dada aos homens  pois diferente dos anjos que foram criados sem estarem sujeitos à morte física, se faz necessário perpetuar a espécie humana. Ou seja, não é factível a um anjo, ou a um demônio coabitar, gerar filhos, ter desejo sexual, etc., pois estas questões não são pertinentes aos seres que possuem corpo espiritual ( 1Co 15:44 ), e os que possuem corpos espirituais não casam e nem são dados em casamento ( Lc 20:35 ).


postador por: Claudio F. Crispim

Nasceu em Mato Grosso do Sul, Nova Andradina, em 1973. Aos 2 anos, sua família mudou-se para São Paulo, onde vive até hoje. O pai ‘in memória’ exerceu o oficio de motorista de ônibus coletivo e a mãe comerciante, ambos evangélicos. Claudio Crispim cursou o Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública na Academia de Policia Militar do Barro Branco e, desde 2004 exerce a função de Tenente da Policia Militar do Estado de São Paulo. É casado com Jussara e é pai de dois filhos, Larissa e Vinícius. É articulista do Portal Estudo Bíblico (www.estudobiblico.org), com mais de 200 artigos publicados e distribuídos gratuitamente na web.

Create Account



o que você procura ?