Estudos Biblicos

O mito do renovo da águia

postador por: Claudio F. Crispim
29 Jun 2016
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O mesmo Senhor que anuncia que ‘todo vale será exaltado’ (Is 40:4), também, anuncia que os que confiam n’Ele renovarão as forças, de modo que subirão com asas como de águias, ou seja, plenos de força, de vigor. A força proporcionada por Deus fará com que os que confiam n’Ele corram e não se cansem, caminhem e não se fatiguem.


Introdução

À época do apóstolo Paulo a exposição de fábulas[1] em meio aos cristãos já ganhava notoriedade, tanto que ele alertou os irmãos Timóteo e Tito, a quem incumbia o cuidado de algumas igrejas, acerca dos ‘mitos’ que circulavam entre os primeiros cristãos.

"Nem se deem a fábulas ou a genealogias intermináveis, que mais produzem questões do que edificação de Deus, que consiste na fé; assim o faço agora (...) Mas rejeita as fábulas profanas e de velhas e exercita-te a ti mesmo em piedade" (1 Tm 1:4 e 4:7);

"Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; e desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas" (2 Tm 4:4);

"Não dando ouvidos às fábulas judaicas, nem aos mandamentos de homens, que se desviam da verdade" (Tt 1:14).

A questão é seríssima, pois, o apóstolo Pedro lembra que o poder de Cristo e a sua vinda não foi anunciado aos irmãos através de estórias inventadas (fábulas artificialmente compostas), antes, os apóstolos viram a majestade de Cristo e, por isso, tornaram notório aos homens quem era Jesus de Nazaré: o Filho de Deus (2 Pe 1:17).

"Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas; mas, nós mesmos vimos a sua majestade" (2 Pe 1:16; 1Jo 1:3).

Vale destacar que, lá pelos idos do século VI a. C., viveu entre os gregos um escravo que foi liberto pelo seu senhor: Esopo, um hábil contador de estórias, cujos personagens eram animais[2] e que se encerrava com uma deixa de cunho moral. Esopo foi citado por vários escritores como Heródoto, Aristófanes e Platão e várias de suas estórias foram editadas e citadas por diversos autores.

Muitos escritos judaicos sofreram forte influência das filosofias e dos ensinos pagãos que, pela tradição dos anciãos, foram incorporados à chamada lei oral e, por fim, ao Talmude. Os escritos apócrifos possuem inúmeras estórias fictícias, produto da imaginação humana, mas que utilizam personagens bíblicos como Moisés, Daniel, etc.

Os apóstolos Paulo e Pedro alertam os cristãos contra os mitos judaicos, ou seja, as suas invenções, que tinham por base genealogias, filosofias, mandamentos de homens, misticismo, etc., mas, apesar do alerta, a quantidade de fábulas que, em nossos dias, circulam em meio aos cristãos, é surpreendente.

Dentre elas, destaco a estória da renovação da águia, de autoria desconhecida e muito divulgada nos círculos cristãos, em redes sociais, e, até mesmo, em sermões.

 

O renovo da águia

A primeira informação que o mito da renovação da águia apresenta é acerca da longevidade desse predador: de que a águia possui a maior longevidade entre as aves e, que a média de expectativa de vida de uma águia é de 70 anos. Fontes mais confiáveis afirmam que a média de expectativa de vida da maioria das águias, dependendo da espécie, é de 30 anos, e que grandes águias e abutres podem viver em cativeiro até 60 anos[3].

As asserções seguintes, acerca do renovo da águia, são mais absurdas ainda, pois dá conta que, para atingir a casa dos 70 anos, primeiro a águia precisa tomar uma difícil decisão. Ora, sabemos que os animais, em determinadas fases do seu desenvolvimento, adotam comportamento instintivo[4], portanto, é temeroso o argumento de que um animal deve tomar uma decisão e com um complicador: uma decisão séria e difícil.

A descrição que fazem de uma águia quando envelhece é descabida, pois as unhas de qualquer animal, quando na natureza, são afiadas pelo uso, e, com o passar do tempo, se fortalecem ainda mais. O mesmo principio se aplica ao bico, uma estrutura de queratina com crescimento continuo durante a vida da ave.

Se uma ave de rapina, pela velhice, não consegue agarrar uma presa, não é porque suas unhas se tornaram flexíveis, antes a causa está na falta de agilidade decorrente da debilidade muscular que é próprio à velhice.  

As considerações acerca das asas, de que elas se tornam pesadas, em função das penas envelhecidas pelo tempo, também são descabidas, pelas imprecisões terminológicas. Ave alguma arranca as suas penas para renová-las, o que pode ocorrer em função de alguma patologia como o estresse, o que pode ocorrer quando uma ave está em cativeiro.

A águia, como todas as aves, troca as suas penas ao longo da vida, num processo denominado ‘muda’, o que depende do clima, alimentação, período de reprodução, etc., nunca por uma decisão que envolva intencionalidade ou instinto.

A descrição do processo de renovação que o mito da águia apresenta, não encontra paralelo na natureza. Não há achados de penas, bicos ou unhas de águias que comprovem que elas se renovam quando se refugiam no alto dos picos das montanhas, em ninhos construídos próximos a um paredão de pedras.

As aves, geralmente, afiam seus bicos nas pedras, mas a estória do renovo da águia diz que ela arranca o bico batendo na parede de pedra e que espera um novo bico crescer para arrancar as unhas. Ora, bicos e unhas são irrigados com sangue e possuem terminações nervosas, o que impossibilita um animal sadio de se automutilar.

A estória do renovo da água diz que a águia, quando decide não morrer aos 40 anos, arranca as penas com as unhas e a sua restauração se dá através de um processo que dura míseros 150 dias. Vale destacar que uma pena arrancada do seu folículo, se não for naturalmente durante a ‘muda’, demora no mínimo um ano para nascer e o mito do renascimento da águia diz que, após cinco meses, a águia está renascida para o seu ‘famoso’ voo de renovação, quando viverá por mais 30 anos.

 

As Escrituras

Questões da natureza à parte, ou até mesmo referências à mitologia grega, de um pássaro, a fênix, que, quando morria, entrava em autocombustão e, depois de um tempo, renascia das próprias cinzas, voltemos às Escrituras para analisar a figura da águia.

No Pentateuco, ao falar aos filhos de Israel, Deus utiliza as asas da águia para indicar que eles estavam sob a proteção de Deus:

"Vós tendes visto o que fiz aos egípcios, como vos levei sobre asas de águias e vos trouxe a mim" (Êx 19:4);

"Como a águia desperta a sua ninhada, move-se sobre os seus filhos, estende as suas asas, toma-os e os leva sobre as suas asas" (Dt 32:11).

A passagem de Deuteronômio evidencia qual a ideia que a frase: ‘levei sobre asas de águia’ evidencia. Os filhos de Israel, ao serem resgatados do Egito, eram uma nação que havia acabado de alcançar a liberdade, portanto, sem experiência e sem condições de se defender, de modo que precisaram da proteção de Deus, assim como um filho necessita do cuidado do pai, ou uma ninhada necessita do cuidado da águia.

Em algumas passagens, a águia é utilizada como figura para fazer referência à rapidez, à velocidade desse predador:

"O SENHOR levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra, que voa como a águia, nação cuja língua não entenderás" (Dt 28:49; Jr 4:13; Hc 1:8);

"Saul e Jônatas, tão amados e queridos na sua vida, também na sua morte não se separaram; eram mais ligeiros do que as águias, mais fortes do que os leões" (2 Sm 1:23; Jó 9:26).

Outras passagens apontam para a força de destruição dessa ave de rapina:

"Porque assim diz o SENHOR: Eis que voará como a águia e estenderá as suas asas sobre Moabe" (Jr 48:40);

"Eis que ele, como águia subirá, e voará, e estenderá as suas asas contra Bozra; e o coração dos valentes de Edom, naquele dia, será como o coração da mulher que está com dores de parto" (Jr 49:22).

O contexto demonstra que nestes dois versos de Jeremias ‘estender a asa’ significa as nações estão ao alcance da destruição, ou seja, não há escape.

Mas, há dois versos em que a figura da águia aparece em um mesmo verso, com a ideia de renovo:

"Que farta a tua boca de bens, de sorte que a tua mocidade se renova como a da águia" (Sl 103:5);



-left: 35.4pt;">"Mas os que esperam no SENHOR renovarão as forças, subirão com asas como águias; correrão e não se cansarão; caminharão e não se fatigarão" (Is 40:31).

 

Subirão com asas

O profeta Isaias utiliza a figura da águia para descrever aqueles que confiam em Deus: eles renovarão as forças. O verso não diz que os que esperam em Deus se renovarão como águias, antes, que renovarão as forças, pois Deus é o que concede força ao cansado: “Dá força ao cansado e multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor” (Is 40:29).

A abordagem de Isaías deixa evidente que o renovo proposto por Deus é da força e do vigor dos que confiam, o que difere do equivoco de considerar que os que confiam em Deus se renovam como uma águia se renova, o que poderia dar supedâneo à má ideia expressa no mito do renovo da águia.

 

A mocidade renovada

O que entender do Salmo 103, verso 5?

"Que farta a tua boca de bens, de sorte que a tua mocidade se renova como a da águia" (Sl 103:5);

Como a águia não se renova, certo é que a mocidade não se renova como a da águia, antes, o que se renova é o vigor, a força, segundo o que expressa a tradução do Rei Tiago:

“Ele sacia de bens a tua existência, de maneira que a tua juventude se renova como o vigor de uma águia(Sl 103:5) KJA.

O renovo da águia não possui comprovação cientifica e, muito menos, decorre ou fundamenta-se em alguma asserção das Escrituras. Há farto material na internet que denuncia a farsa que o mito da águia promove, mas poucos se detém a comentar o Salmo 103, verso 5.

O entendimento equivocado acerca da águia, que muitos depreendem e atribuem ao Salmo 103, verso 5, essencialmente decorre de má leitura. A má leitura e a falta de compreensão de alguns, permeia todo o verso.

 

Boca plena de bens

Considerando que a vida de um homem não consiste nos bens materiais que possui (Lc 12:15), para que o homem tenha a boca cheia de bens, Deus troca o seu coração, arrancando o coração de pedra herdado de Adão e concede um novo, pois do que há no coração, disso fala a boca: "E dar-vos-ei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra e vos darei um coração de carne" (Ez 36:26); "Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca" (Mt 12:34).

Ciente dessa verdade, o Salmista roga a Deus que lhe dê um novo coração. Como? Que Deus crie um coração puro, o que contrasta com o antigo coração (Sl 51:10). Os bens, dos quais a boca se torna cheia (plena), referem-se ao louvor que essa boca entoará (Sl 51:15).

A boca plena de bens não diz de riquezas materiais, até porque o êxito de um homem de Deus está em guardar a fé e não em seu poder aquisitivo, para comprar roupas e alimentos: "A bênção do SENHOR é que enriquece; e não traz consigo dores" (Pv 10:22; Hb 13:7).

Um coração enganoso não pode dizer boas coisas, antes produz engano, mentira, pois uma árvore não produz duas qualidades de frutos: bons e maus: "Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas e perverso; quem o conhecerá?" (Jr 17:9); “Por seus frutos os conhecereis. Porventura, colhem-se uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos? Assim, toda a árvore boa produz bons frutos e toda a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons. Toda a árvore que não dá bom fruto, corta-se e lança-se no fogo. Portanto, pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7:16).

Os bens os quais Deus farta a boca, diz de um cântico novo, que só pode entoar aqueles que são gerados de uma semente incorruptível, pois os lábios passam a produzir sacríficio de louvor, o fruto de lábios que confessam que Jesus Cristo é o Senhor (Hb 13:15; Sl 51:14).

Somente aqueles que são plantados por Deus, são árvores de justiça, para que Ele seja glorificado (Jo 15:8; Mt 15:13; Is 60:21 e Is 61:3). Ter a boca cheia de bens só é possível ao novo homem gerado da água e do espírito, pois o novo homem possui o vigor próprio à águia: nunca se cansa e nem se fatiga (Is 40:31).

Jesus convida os cansados e oprimidos, pois Ele diz: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei" (Mt 11:28).

Vale destacar que Deus não reformula o velho homem, antes é criado um novo homem, em verdadeira justiça e santidade (Ef 4:24). Deus não transforma o velho coração, antes cria um novo (Sl 51:10). O corpo do velho homem é desfeito quando crucificado com Cristo, pois é sepultado (Rm 6:4 -6; Cl 2:12; ). Com Cristo, ressurge um novo homem, portanto, não há um renovar mas,  um novo nascimento, uma nova criação (Cl 2:12).

“No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão, no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos. E, quando vós estáveis mortos nos pecados, e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos de todas as ofensas” (Cl 2:11-13).

O mito do renovo da águia é uma entre milhares de mensagens que circulam nas redes sociais, com viés de autoajuda. Geralmente, ganham versões ilustradas, trilha sonora e voz atraente para capturar a atenção e a credibilidade do ouvinte.

Mas, o alerta é claro:

"Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores, conforme as suas próprias concupiscências; e desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas" (2Tm 4:4).

O poder do evangelho decorre da cruz de Cristo, e não de estórias, fábulas e mitos. É por isso que o apóstolo Paulo lembra:

"Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos" (1Co 1:23);

"Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado" (1 Co 2:2);

"A minha palavra e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas, em demonstração de Espírito e de poder" (1 Co 2:4).

Fica o alerta: o evangelho de Cristo não é filosofia de autoajuda, não segue e nem depende da moral humana, porque os caminhos de Deus não seguem o curso deste mundo!

“Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o SENHOR. Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos e os meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos” (Is 55:8-9).

 

[1] Da palavra grega μῦθος (mýthos), uma estória, uma ficção, um mito, uma invenção.

[2] “As fábulas (do Latim fabula: história, jogo ou narrativa), são composições literárias curtas, escritas em prosa ou versos, em que os personagens são animais, que apresentam características antropomórficas, muito presente na literatura infantil. As fábulas possuem caráter educativo e fazem analogia entre o cotidiano humano, com as histórias vivenciadas pelos personagens, essa analogia é chamada de moral e geralmente, é apresentada no fim da narrativa (...) provérbios sumérios, escritos cerca de 1500 a.C., já compartilhavam semelhanças com as fábulas gregas. Esses provérbios já incluíam em suas narrativas animais antropomórficos e uma lição moral”, cf. Wikipédia.

[3] Kirschbaum, Kari (2004). «EOL Encyclopedia of Life: Accipitridae: Life Expectancy» [S.l.: s.n.] Referência citada na Wikipédia - Consultado em 2016-06-26.

[4] “Instintos são típicos do comportamento animal, sobretudo com relação a comportamentos que favorecem a sobrevivência da espécie (acasalamento, busca de alimento, construção de ninhos, fuga). Os comportamentos instintivos podem assumir formas muito complexas, com longas sequências de ações especializadas para determinados fins (por exemplo, a reprodução e a alimentação de insetos)” Wikipédia.


postador por: Claudio F. Crispim

Nasceu em Mato Grosso do Sul, Nova Andradina, em 1973. Aos 2 anos, sua família mudou-se para São Paulo, onde vive até hoje. O pai ‘in memória’ exerceu o oficio de motorista de ônibus coletivo e a mãe comerciante, ambos evangélicos. Claudio Crispim cursou o Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública na Academia de Policia Militar do Barro Branco e, desde 2004 exerce a função de Tenente da Policia Militar do Estado de São Paulo. É casado com Jussara e é pai de dois filhos, Larissa e Vinícius. É articulista do Portal Estudo Bíblico (www.estudobiblico.org), com mais de 200 artigos publicados e distribuídos gratuitamente na web.

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